sexta-feira, 5 de abril de 2013

O regresso da Biosfera 2

  
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Nova vida para um velho fiasco
Considerado um falhanço científico durante muito tempo, este centro de investigação, construído nos Estados Unidos na década de 1980, atrai atualmente especialistas de vários campos, que ali estudam desde a extinção das espécies vegetais até aos efeitos das alterações climáticas.
Em Julho de 1987, a simulação de uma enigmática estrutura cristalina cobria as capas das revistas de divulgação científica. Através de um corte numa das paredes, podia ver-se que estava ocupada por árvores, aves, um lago e vários técnicos trabalhando em diversos sistemas de manutenção. Tratava-se da Biosfera 2, um enorme simulador de ecossistemas onde um grupo de investigadores pretendia encerrar-se durante dois anos. Em teoria, aquele complexo autossuficiente com mais um hectare de área iria albergar centenas de espécies que viveriam em diversos biomas ou paisagens bioclimáticas artificiais: uma selva, um mar, uma savana, um pântano...
A ideia era que os recursos, do ar à água, se renovassem automaticamente. Por exemplo, o dióxido de carbono expulso pelas pessoas e pelos animais seria aproveitado pelas plantas, enquanto os detritos fertilizariam os terrenos de cultivo e serviriam de nutriente às algas. Estas, por sua vez, constituiriam a base alimentícia de outras formas de vida. No final, tratava-se de estudar até que ponto seria possível construir um habitat autónomo onde pudessem estabelecer-se os futuros colonos que viajassem para a Lua ou para Marte.
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Investigação em grande.
No entanto, uma série de incidentes deitou por terra aquela aventura de 200 milhões de dólares. Durante a primeira missão, que teve lugar entre 1991 e 1993, baratas e formigas penetraram no sistema, aparentemente estanque (dizia-se que apenas perdia dez por cento do ar por ano, enquanto nos vaivéns espaciais essa perda era de 2% por dia). Os níveis de CO2 aumentaram perigosamente, o que causou a morte dos insetos polinizadores e de muitos vertebrados e tornou necessário injetar oxigénio para garantir a sobrevivência do projeto.
As dissensões que surgiram durante a segunda missão, realizada em 1994, deram o golpe de misericórdia na Biosfera 2. Durante 13 anos, a estação foi abandonada, reocupada pela Universidade de Columbia, objeto de especuladores e ícone da cultura New Age.
Até que, em 2007, a Universidade do Arizona adquiriu-a e converteu-a num grande laboratório de ciências da Terra (http://www.­b2science.org). Ali, é hoje possível estudar como em nenhum outro lugar do mundo o impacto das alterações climáticas sobre as espécies vegetais e a resposta dos ecossistemas a concentrações elevadas de gases de efeito de estufa. Além disso, segundo os responsáveis pela nova Biosfera 2, a instalação funciona como um modelo de cidade no qual também é possível ensaiar estratégias para reduzir as emissões poluentes ou a implantação de novos sistemas de distribuição elétrica.
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A.A.

SUPER 167 - Março 2012

Árvores marinhas

Parque à beira-praia
As estruturas criariam habitats para múltiplas espécies animais, cujos efeitos se fariam sentir muito para o interior
 
 
 
Um gabinete de arquitetura holandês acaba de propor (<Fev - 2012?) um parque natural flutuante para equilibrar o ambiente nas grandes cidades: chamou-lhe Sea Tree (árvore marinha) e é uma estrutura com vários andares de habitats naturais, destinados a animais selvagens. O waterstudio acredita que as árvores marinhas forneceriam importantes ecossistemas para pássaros, abelhas, morcegos e outros pequenos animais, com reflexos positivos sobre a qualidade de vida nas cidades.
Para os arquitetos, são raras e difíceis as iniciativas de criar novos parques dentro das cidades, e por isso será necessário recorrer a áreas abertas como rios, o mar, lagos e portos. Propõem-se usar as técnicas usadas para construir as plataformas de petróleo, e sugerem mesmo que sejam as companhias petrolíferas a doá-las às cidaddes, para mostrar que se preocupam com as questões ambientais.
As gigantescas torres flutuantes seriam amarradas ao solo, através de cabos submarinos, e a sua altura e profundidade poderiam ser ajustadas segundo as necessidades. "Sob a superfície, a Sea Tree oferece um habitat para pequenas criaturas marinhas e, dependendo dos climas, para corais de recifes artificiais", explica o arquiteto Koen Olthuis. "A beleza do conceito é fornecer uma solução que não tem custos sobre o solo, embora os efeitos das espécies se sintam num raio de quilómetros".
O Waterstudio (http://waterstudio.nl/projects/79) afirma que vai construir a primeira estrutura até Janeiro de 2014, para um cliente desconhecido.
Super Interessante 167 - Março de 2012

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Natureza íntima

Flagrantes da vida real
Reconhecido e premiado fotógrafo da vida selvagem, João Cosme (www.joaocosme.net) reuniu no livro Natureza íntima (Bizâncio, 2011) uma centena de imagens únicas que retratam parte da biodiversidade nacional.
Super Interessante 166 - Fevereiro de 2012

terça-feira, 2 de abril de 2013

Farmácia caseira

Quando se fala de primeiros socorros, a medicina popular é bastante simples e prática: se existe ferida , aplica-se calêndula; se não, usa-se arnica. Uma regra tão clara pode, no entanto, induzir-nos em erro, levando-nos a pensar que a farmácia caseira se resume a apenas duas ervinhas, quando, na verdade, se conhecem mais de 400 espécies de plantas medicinais. Segue-se um pequeno guia das plantas (para cada uma indica-se o nome comum e a denominação científica, porquanto os nomes vulgares variam muito de região para região) com lugar assegurado em qualquer farmácia natural, mas não se pense que são as únicas.

Alecrim (Rosmarinus officinalis) - As folhas estimulam a circulação e aliviam a dor. Atua sobre o sistema nervoso e fortalece a memória. Utiliza-se no tratamento de insuficiências hepáticas e vesiculares, uma vez que possui propriedades diuréticas. Alivia a asma, as amigddalites e a obstrução nasal e aumenta o apetite.

Alfazema (Lavandula officinalis) - Em tisana, alivia as dores de cabeça e acalma os nervos. Utiliza-se na asma brônquica, na tosse, nas enxaquecas, nas gripes e em certos casos de reumatismo.

Arnica (Arnica montana) - As suas flores e raízes usam-se como estimulantes cardíacos, sob estrito controlo médico, dado que se trata de uma planta tóxica. No uso externo, estimula a reabsorção dos hematomas e tem propriedades antissépticas e cicratizantes.

Borragem (Borago officinalis) - A borragem é um remédio de ação suave muito apreciado na medicina popular. Para aproveitar o efeito calmante e emoliente das suas flores, fazem-se excelentes infusões que tratam a incómoda tosse das bronquites. Utiliza-se como depurativo, diurético, laxativo e sudorífico.

Calêndula (Calendula officinalis e C. Arvensis) - Faz parte de numerosos preparados farmacêuticos e cosméticos e as suas propriedades bactericidas e cicratizantes converteram-na na planta ideal para os cuidados da pele. Usa-se para curar feridas e limpar a pele com acne ou descamação, nas queimaduras, nas picadas de insectos,etc.

Camomila (Matricaria chamomilla) - A infusão das flores produz uma tisana tónica e sedativa. Usa-se no banho para aliviar as queimaduras do sol. É habitualmente utilizada para acalmar espasmos e convulsões, como anti-inflamatório, antisséptico, etc.

Carqueja (Chamaespartium tridentantum) - Acalma a tosse e as irritações da faringe, sendo muito utilizada nas gripes, nas bronquites, na pneumonia e nas traqueítes.

Cidreira (Melissa officinalis) - Em infusão, alivia o catarro provocado pela bronquite crónica, as constipações febris e as dores de cabeça. Utiliza-se como calmante e no tratamento de perturbações gástricas e de dores de cabeça de origem nervosa.

Dente-de-leão (Taraxacum officinale) - É diurético e destaca-se no combate à arteriosclorose, à celulite, à tensão alta e ao mau colesterol. Usa-se ainda nos problemas de fígado e vesícula.

Erva-de-São-Roberto (Geranium robertianum) - Possui propriedades adstringentes, espasmódicas, diuréticas, hemostáticas e hipoglicemiantes. Utiliza-se em problemas de estômago, hemorragias pulmonares ou nasais, diarreias e cálculos renais e urinários.

Hipericão-bravo (Hypericum perforatum) - É antisséptico, cicratizante, diurético e sedativo. Utiliza-se na depressão, na insónia, nas infecções gineológicas e nas inflamações crónicas do estômago, da vesícula e dos rins. Além disso, ajuda nas dores musculares e nevralgias e no herpes labial.

Hipericão-do-Gerês (Hypericum androsaemum) - Tem propriedades diuréticas e estimula a libertação da bílis. Utiliza-se nos tratamentos hepáticos.

Lúcia-lima (Lippia citriodora) - Combate,sobretudo, as perturbações digestivas e nervosas. Usa-se contra as indigestões, a flatulência e o mau hálito e como calmante.

Malva (Malva silvestris) - Apresenta propriedades anti-inflamatórias e utiliza-se na lavagem de feridas e como calmante sobre a pele e as mucosas inflamadas. Em infusão, usa-se em casos de diarreia, úlceras no estômago, catarros e obstrução das vias respiratórias, e ainda como laxativo.

Orégão (Origamum vulgare) - Em tisana, combate a tosse, as dores de cabeça nervosas e a irritabilidade. Utiliza-se contra a gripe, as constipações, as febres e a indigestão.

Poejo (Mentha pulegium) - Usa-se como calmante e contra indigestões, gripes, bronquites e dores menstruais. Não deve ser tomado durante a gravidez ou em caso de problemas renais.

Rosmaninho (Lavandula stoechas) - Tem propriedades sedativas, antissépticas, insecticidas, cicratizantes, diuréticas e sudoríferas. Utiliza-se também para aliviar as náuseas e estimular a circulação.

Salva (Salvia officinalis) - Depois das refeições, a infusão de folhas pode ajudar a fazer a digestão. É antisséptica e fungicida e contem estrogéneos. Utiliza-se contra a depressão, as inflamações da boca e da garganta, a diarreia e os afrontamentos da menopausa.

Tilia (Tilia cordata) - Tem propriedades diuréticas e sedativas. Usa-se contra febres, acidez gástrica e doenças hepáticas e biliares.

Urze (Calluna vulgaris) - É adstringente, antisséptica e diurética. Usa-se contra problemas urinários, diversas afeções renais e hipertrofia da próstata.

Zimbro (Juniperus communis) - As falsas bagas desta planta tiveram na Idade Média uma extraordinária celebridade, pois supunha-se que faziam curas miraculosas. É usado como depurativo e diurético. Entra na confeção de alguns pratos, serve para condimentar o presunto fumado e é o principal ingrediente na preparação do gin (bebida alcoólica destilada).

Super Interessante 165 - Janeiro de 2012

Cada ovo no seu ninho

Este elaborado ninho pertenceu a uma gaivina-de-bico-vermelho (Hydroprogne cáspia), uma ave marinha que nidifica em colónias e oculta os ovos entre conchas algas e pedras.
 
Pedaços de ervas, folhas secas, musgo, palha, raminhos, conchas, pelos de cavalo ou de ovelha: são muitos os materiais usados pelas aves para construirem seus ninhos. Sharon Beals, fotógrafa norte-americana e apaixonada observadora da avifauna, dedicou-se a fixar em imagens estes lares fantásticos, do que resultou o seu livro Nests - 50 Nests and the Birds That Build Them (Chronicle Books, San Francisco, Estados Unidos, 2011). As fotografias revelam um mundo de estruturas aparentemente frágeis, mas muito eficazes, que oferecem pistas sobre os seus construtores e os ecossistemas terrestres.
No século XIX e no início do sequinte, a oologia era não apenas uma disciplina científica mas também um hobby para muitos entusiastas que se dedicavam a recolher e colecionar ovos e ninhos, ignorando o impacto desta prática sobre a biodiversidade. Nos nossos dias esta prática é ilegal na maioria dos países, mas conservam-se bastantes coleções privadas antigas, entretanto entregues aos museus das ciências. Foi aí que Sharon Beals obteve material para as fotos.
Dado que 12 por cento das aves estão em perigo de extinção, estes ninhos são especialmente valiosos, pois contêm vestigios genéticos dos pássaros, dos seus parasitas e do seu habitat, e porque permitem conhecer os seus hábitos de caça e de alimentação.

Super Interessante - Janeiro de 2012

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Será possivel viver sem fósforo?



Arsénico que dá vida.
Uma bactéria aproveita este elemento tóxico como combustível celular, algo que se pensava ser impossível. A polémica descoberta colocou a autora, a microbióloga Felisa Wolf-Simon, no centro de um aceso debate.
Em 2009, Felisa Wolfe-Simon, uma microbióloga norte-americana com uma bolsa de investigação concedida pela NASA, retirou amostras de lodo do fundo do lago Mono, na Califórnia. Este possui uma elevada concentração de minerais e é 2,5 vezes mais salgado do que a água do mar, pois não tem qualquer saída por onde fluir. A investigadora colocou as amostras em tubos de ensaio com uma solução de arsénico, substância que se pode tornar muito tóxica, e aguardou que bactérias crescessem nesse meio. Durante meses, repetiu o processo, aumentando a quantidade de arsénico de forma paulatina, até que obteve uma estirpe que não só o tolerava como podia incorporá-lo nos seus processos vitais e utilizá-lo como substituto do fósforo.
A noticia, de extrema importância pelas suas implicações, nomeadamente para a astrobiologia, correu o mundo em Dzembro de 2010. O que esta bactéria, denominada GFAJ-1, parece conseguir é tão milagroso como seria o facto de um ser humano poder respirar normalmente numa câmara com monóxido de carbono. Do ponto de vista molecular, o arsénico é muito semelhante ao fósforo. É por isso que é tão venenoso: as células aceitam-no e, de seguida, são mortas. Todavia, o microrganismo não só é imune ao agente tóxico como chega a utilizá-lo para se construir a si próprio.
Durante uma conferência de imprensa muito criticada pela comunidade científica, a NASA anunciou que poderia tratar-se de uma nova e exótica forma de vida. Vários especialistas, em especial a microbióloga Rosie Redfield, da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), foram de opinião que a experiência apresentava deficiências. Sugeriram, basicamente, que o ADN do micróbio não fora bem “lavado” e que, por conseguinte, como escreveu o jornalista Carl Zimmer na revista Slate, as moléculas de arsénico tinham-se “colado como uma pastilha elástica a um sapato”. A imprensa especializada também censurou a NASA pela dose de sensacionalismo que impregnava a notícia, pois quase levava a crer que se tinha descoberto um ser alienígena.
“Embora os resultados do trabalho de Wolfe-Simon sejam assombrosos e lancem uma nova luz sobre a procura de vida em ambientes extremos – incluindo meios extraterrestres -, a verdade é que não mostram uma nova forma de vida ou representam um grande passo em frente”, afirmava a revista Discover. Paralelamente, a notícia “incendiou” as redes sociais, que se transformaram em centros de debate onde qualquer cidadão podia comentar a descoberta ou mesmo atacar a sua autora.
Avalancha na internet. Para a jovem microbióloga, a experiência tornou-se um pesadelo, embora lhe tenha aberto os olhos para as subtilezas da comunicação científica. “Só coloquei um breve poster no Twitter, mas aprendi que a internet dá voz a coisas que não se podem antecipar. Inundaram-me de perguntas e mensagens de correio eletrónico; todos pediam uma resposta imediata. Foi muito rápido”, explica Felisa. “Creio que não estávamos preparados para lidar com a celeridade e as especulações dos meios de comunicação nas novas plataformas da internet. Pensávamos que as nossas descobertas iam provocar um debate científico, mas não previmos esta reação. Estava pronta para comunicar a minha paixão por entender os princípios fundamentais da natureza, não para descrever o estudo como algo de definitivo. Na realidade, ainda temos um longo caminho a percorrer.”
Depois de se negar a falar com a imprensa durante algum tempo, Wolfe-Simon resolveu rebater as críticas, numa entrevista concedida à Science, em especial a que assegurava que o ADN do micróbio não fora convenientemente descontaminado. “Pegámos nas células para as separar por centrifugação e lavá-las minuciosamente. Seguimos o protocolo padrão para extração do ADN, que inclui eliminar todas as impurezas, incluindo qualquer vestígio de arsénico […]. A fracção de ADN utilizada para efetuar as análises suplementares e outros processos, como a reação em cadeia da polimerase [técnica usada para copiar fragmentos de ADN], exige material genético com um elevado grau de purificação, pelo que, se houvesse qualquer contaminante, teria surgido um problema. Por conseguinte, não acreditamos que essa questão possa ser motivo de preocupação.”
De facto, a microbióloga está disposta a partilhar as suas amostras com outros colegas: “Embora o nosso laboratório não tenha, neste momento, capacidade para produzir e enviar grandes quantidades de células, é um dos nossos objetivos. Recebemos muitos pedidos, e estamos empenhados”, diz Felisa, acrescentando que, ao contrário do que outros especialistas afirmaram, não é fácil trabalhar com as GFAJ-1. “São esponjosas e macias; são diferentes. Quando experimentamos aplicar-lhes diversas técnicas, acrescentamos mais peças ao quebra-cabeças, o que irá, sem dúvida, suscitar novas interrogações”, explicou na Science.
Pouco depois da divulgação da descoberta de Wolf-Simon, Rose Redfield anunciou na mesma revista norte-americana que iria tentar reproduzir o trabalho e que tencionava anúnciar os resultados, passo a passo, à vista de todos, no seu blogue. Embora a bactéria, até agora, não tenha conseguido sobreviver na presença de arsénico, os especialistas afirmam que ainda é muito cedo para concluir que a investigação original não tem fundamento.
No entanto, o que ainda incomoda Wolfe-Simon é o tom pessoal de algumas críticas.
“Aborrecem-me porque trabalhei arduamente neste projecto”, assinala. “Apesar de tudo, estou fascinada com o interesse que o assunto despertou. Creio que os meios de comunicação são uma parte importante do processo. Não queremos ser evasivos. Apenas necessitamos de tempo para pensar.”
Super 164 – Dezembro 2011