domingo, 11 de novembro de 2012

Biocombustíveis: o que são?


Poderão estes combustíveis ajudar a salvar o planeta?
Os biocombustíveis são tidos como carburantes limpos e facilmente disponíveis, uma vez que derivam da biomassa e dos biorresíduos. Podem ser produzidos através de colheitas, árvores, detritos animais e até algas, o que os torna mais renováveis que os combustíveis fósseis. Como podem derivar de resíduos, promovem melhores atitudes em relação á reciclagem; e ao contribuírem para a redução das emissões de gases com efeito de estufa, são considerados “amigos do ambiente”. Em certas regiões do mundo, são utilizados produtos agrícolas específicos para criar os bio ou agrocombustiveis: os EUA apostam na produção a partir de switchgrass (gramínea nativa da América do Norte), soja e milho, enquanto a Europa contribui com beterraba e trigo, o Brasil utiliza a cana-de-açúcar, a China recorre á mandioca e ao sorgo, o Sudoeste Asiático prefere óleo de palma e o miscanto, e a índia opta pela purgueira. Utilizados em veículos, aquecimento doméstico e pequenos electrodomésticos, existem, contudo, reservas em relação aos biocombustíveis, que acarretam riscos para o ambiente e a biodiversidade. O óleo de palma, por exemplo, é cultivado á custa da “limpeza” de habitats biologicamente ricos, como as florestas tropicais. Por outro lado, questiona-se a exploração agrícola para a produção de energia em vez de alimentos- cientistas da Universidade Estadual do Michigan (EUA) concluíram este ano que o cultivo alimentar é energeticamente mais eficiente. Estas reservas têm dado lugar, contudo, a uma exploração mais científica dos biocombustíveis. As algas, por exemplo, podem ser produzidas com terra e água impróprias para outras utilizações, de forma a preservar os terrenos férteis. São ainda biodegradáveis e relativamente inócuas, já que consomem dióxido de carbono, ajudando a mitigar os efeitos dos gases com efeito de estufa.   
Fonte: quero saber Outubro 2010

terça-feira, 6 de novembro de 2012



Fármacos da horta e do pomar
Os anticancerígenos mais potentes crescem na natureza, embora continuemos a desconhecer como funcionam exatamente.
No laboratório do médico canadiano Richard Béliveau “pairava um aroma extremamente apetitoso, em contraste com o habitual odor a compostos químicos e detergentes”, evocava o recentemente falecido David Servan-Schreider no livro Anticancro. A resposta para o mistério é que a equipa daquele especialista em medicina molecular da Universidade de Montréal estava a cozinhar (literalmente) um fármaco para administrar a ratos com cancro do pulmão. Era possível comprar os ingredientes no supermercado mais próximo: couves-de-bruxelas, brócolos, alho, cebolinho, curcuma, pimenta preta, mirtilos, toranja e uma pitada de chá verde. Os roedores tratados com aquele cock­tail pareciam melhorar a olhos vistos.
Servan-Schreider, que sobreviveu durante 19 anos a um tumor cerebral, era um adepto incondicional daquilo a que Béliveau chama “nutracêuticos”, ou seja, alimentos com poderes terapêuticos. Todavia, esse entusiasmo não é partilhado por toda a comunidade científica, pelo menos no que diz respeito ao cancro. Desde a década de 1970, quando se começaram a ponderar as virtudes da fruta e dos vegetais, as investigações entraram demasiadas vezes em ponto morto. Recentemente, Tim Key, da Universidade de Oxford (Reino Unido), cruzou os dados de dezenas de estudos ao longo de duas décadas e chegou a uma desoladora conclusão: pelo menos no Ocidente, a dieta verde não produz efeitos significativos.
As associações entre cancro e fatores alimentares “são difíceis de avaliar”, pois a alimentação é “muito complexa” e “o cancro demora muitos anos a desenvolver, pelo que é difícil perceber o papel dos alimentos ao longo das várias fases”, diz Nuno Lunet, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que exemplifica: “Frutos e vegetais têm um fator protetor, mas isso não vale para todos os cancros.” No entender deste especialista, mais consensual é que “o controlo do peso é um fator essencial” para a saúde.
Com efeito, suspeita-se que a obesidade e o excesso de peso talvez estejam por detrás de cerca de um terço dos tumores malignos. Por outro lado, em termos de prevenção, há médicos que atribuem virtudes protetoras a determinadas verduras crucíferas, como os brócolos, a couve-flor ou as couves-de-bruxelas. O que terão estes vegetais e outros candidatos habituais a possuir propriedades anticancerígenas, como os frutos silvestres ou o tomate? Pois bem: um verdadeiro arsenal de substâncias agrupadas sob o rótulo de fitoquímicos.
Com efeito, é com estes compostos (luteí­nas, polifenóis, carotenóides, flavonóides...) que os seres vivos que crescem no solo se protegem contra as infeções, os raios ultravioleta e as inclemências do tempo. A suspeita surge ao constatar, por exemplo, que a população japonesa consumidora de chá verde sofre muito menos de tumores pulmonares, circunstância atribuída ao polifenol catequina.
O problema é que não basta empanturrar-se de fitoquímicos para escapar da doença, pois há inúmeras variáveis com influência, desde a capacidade genética para assimilá-los até à altura em que começaram a ser incluídos na alimentação. Um caso particular é o da soja, que apenas parece funcionar se for consumida, o mais tardar, a partir da adolescência. Ainda nos falta saber muito sobre os nutracêuticos, mas contam, à partida, com uma vantagem indiscutível: não têm efeitos secundários.
P.C.

SUPER 163 - Novembro 2011

Santuário atrás dos montes

Um dos maiores jardins botânicos da Europa
Estendendo-se por 120 hectares, o Jardim Botânico da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em pleno campus universitário de Vila Real, é uma das coleções vivas mais importantes de Portugal e a maior da península Ibérica. A nível europeu, só é superado pelos Kew Gardens, os majestosos jardins londrinos.
Considerado um exemplo raro daquilo que pode ser o desenvolvimento sustentável num espaço moderno, o Jardim Botânico da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro tem o condão de aliar a natureza no seu estado mais puro com a comunidade académica que por lá se passeia.
Variedades de fruteiras, domésticas e silvestres, plantas aromáticas e medicinais, plantas de cobertura e vinhas fazem parte das coleções temáticas que habitam este espaço. As ericáceas, as fagáceas, as mediterrânicas calcícolas e silicícolas, as plantas arcaicas e resinosas adensam a beleza deste lugar ornamentado.
O reconhecimento internacional chegou por altura do 1.º Simpósio da Associação Ibero-Macaronésica de Jardins Botânicos, em 27 de Maio de 1988. António Crespí é professor da academia transmontana e, atualmente, membro da comissão científica que dirige o jardim. A possibilidade de usar este espaço como laboratório ao ar livre acaba por ser uma dádiva. “Existe uma ligação íntima entre o Jardim Botânico e a docência. Todo este espaço é uma enorme sala de aulas em constante movimento e evolução”, refere.
Coleção em expansão

No Jardim Botânico, há agora cerca de 800 espécies vivas e catalogadas, oriundas, na sua maioria, da bacia mediterrânica e da metade oeste da península Ibérica. O número tende a aumentar, pois sempre que há expedições a outras regiões ou países são trazidos novos frutos, sementes e estacas para enriquecer o espólio. Partilhando deste espírito, houve até um aluno que, numa visita ao campo de concentração nazi de Auschwitz, recolheu sementes deQuercus petrae, que com pouco mais de um ano de vida foram cedidas à UTAD.
Para além desta herança botânica viva, existem ainda as espécies protegidas e catalogadas no herbário. “No banco de germoplasma, estão já cerca de 25 mil espécies secas, mas com o seu ADN completamente preservado. Estas espécies provêm do mundo inteiro, dos dois hemisférios e de todos os continentes”, esclarece o professor.
Neste santuário de biodiversidade cuidado em permanência por seis jardineiros, vivem também algumas espécies protegidas. Segundo Crespí, serão cerca de uma dúzia aquelas que recebem dos técnicos do jardim botânico uma especial atenção. Entre elas, contam-se a Digitalis purpurea subsp. amandiana, a Ononis viscosa subsp. pedroi e a Paradisea lusitanica. Esta última é considerada um “endemismo muito localizado na península Ibérica, uma preciosidade extremamente invulgar”. A espécie protegida mais visível é o azevinho, um arbusto que se vê em abundância na época do Natal, mas que se encontra seriamente ameaçado em Portugal.
Graças às excelentes condições de habitat que o jardim oferece, ao nível da busca de alimento, podem também ser ali observados alguns animais que, à partida, seriam pouco expectáveis. Já foram identificados sinais da presença de animais de maior porte, como javalis ou raposas, mas o mais habitual é que toupeiras, aves de todo o tipo e alguns esquilos surpreendam, por vezes, um professor, um aluno ou um visitante mais atento.

D.F.

SUPER 163 - Novembro 2011

O Ano do Morcego

Os senhores da noite

Injustamente mal-amados
Os morcegos, únicos mamíferos verdadeiramente voadores, são quase desconhecidos do cidadão comum. No Ano Internacional do Morcego, 
o biólogo Jorge Nunes penetra no mundo destes animais noturnos e mostra como é infundada a antipatia que nutrimos por eles.
Ao cair da noite, as aves começaram a abandonar os céus. No seu lugar, surgiram esquivas sombras fantasmagóricas, que andavam atrás dos insetos, atraídos pela intensa luminosidade dos lampiões. Os transeuntes, que se passea­vam vagarosamente pelas ruas aproveitando a brisa fresca do crepúsculo, nem davam pela sua presença. Porém, num dos recantos do Jardim da Cordoaria, aos pés da Torre dos Clérigos, encontrava-se um invulgar ajuntamento de pessoas com os olhos postos no céu. Enquanto os turistas empanturravam os cartões de memória das máquinas fotográficas com a beleza do monumento (ex-libris da cidade invicta), que sobressaía do casario banhado pela luz dourada e mágica do entardecer, os jovens e adultos daquele estranho grupo prestavam mais atenção às criaturas voadoras.
Do amontoado de pessoas, destacava-se uma enérgica figura feminina, com estatura mediana, cabelo grisalho e olhos sorridentes que brilhavam como faróis. Falava com entusiasmo sobre os extraordinários quirópteros (grupo taxonómico no qual se incluem os morcegos, do grego kheir, “mão”, e pteron, “asa”) que as sobrevoavam. Enlevada pela atenção que todos pareciam dar ao tema, ia desfiando curiosidades, umas atrás das outras: desde o modo peculiar como localizam as presas até à forma como hibernam, dão à luz e amamentam as crias, nuas e cegas, em abrigos subterrâneos. Os mitos e medos infundados não foram esquecidos, bem como a enorme importância ecológica e os perigos e ameaças a que têm estado sujeitos. Os olhos curiosos da assistência bailavam entre o discurso e a linguagem corporal contagiante da oradora e os voos rasantes dos morcegos que iam desaparecendo levados pelo breu da noite.
Luzia Sousa, do Museu de História Natural da Faculdade de Ciências do Porto, sabia bem do que falava. Afinal, há muito que se tornou embaixadora dos morcegos. Através de incontáveis ações de esclarecimento e educação ambiental, não se tem poupado a esforços para os dar a conhecer aos cidadãos e, em particular, ao público escolar. Está plenamente convicta de que a sua conservação terá de passar pela consciencialização das pessoas: “Como conseguiremos defender aquilo que não conhecemos?”, interroga-se. “De modo algum nos poderemos dar ao luxo de proteger apenas as espécies ‘queridas’, apenas as que nos cativam com o seu aspeto ‘fofinho’ ”, conclui. Pela forma entusiasmada como todos reagiram àquelas palavras, percebeu-se que tinha atingido os seus objetivos; acabava de cativar mais umas quantas almas para a sua causa nobre: divulgar e proteger os morcegos.
O exemplo de Luzia Sousa, felizmente, não é caso único em Portugal. Se tivéssemos percorrido os cerca de seiscentos quilómetros que separam o Douro Litoral do Algarve, teríamos vivido, alguns dias mais tarde, uma experiência muito similar junto às muralhas de Lagos. António Valadares, coordenador do Centro Ciência Viva local, conta como foram entusiasmantes as noites dos morcegos por terras algarvias. Mesmo quando não foi possível observá-los, um conversor de ultrassons em sons audíveis permitiu ouvi-los e até distinguir as espécies. O mais interessante, salienta, “é mostrar às pessoas [aproximadamente 35 em cada sessão] que os morcegos são bichos muito úteis e que coexistem connosco, mesmo no interior das grandes cidades”.
Ao passar os olhos pela edição 2011 do projeto Ciência Viva no Verão (http://www.cienciaviva.pt), descobrimos que se realizaram muitas outras iniciativas (32 em todo o país) relacionadas com a observação, a audição e a divulgação dos quirópteros portugueses. Em Lisboa, estiveram a cargo da Liga para a Proteção da Natureza e do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos; em Santarém, decorreram no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros; em Tomar, foram promovidas pela Quercus; no Porto, tiveram o acolhimento do FAPAS – Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens; em Bragança, foram dinamizadas pelo Centro Ciência Viva. Contudo, mesmo fora das atividades de verão promovidas pela Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, muitas outras ações poderiam aqui ser referenciadas. Falar de morcegos parece estar na moda.
O Ano do Morcego
O crescente interesse pelos morcegos a que temos vindo a assistir nos últimos anos poderá encontrar justificação, segundo o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), no facto de estes animais terem sido, “até recentemente, quase completamente ignorados pelas instituições de todo o Mundo”, sobretudo, devido aos poucos conhecimentos disponíveis sobre a sua biologia e ecologia, a que se juntou uma má imagem pública. No entanto “a óbvia regressão das populações de muitas espécies e a consciencialização de que muitas delas estão entre os animais mais ameaçados” levaram a que, nos últimos anos, “os morcegos começassem a ocupar lugares de destaque nas prioridades de intervenção de muitas instituições de conservação”.
Depois de 2001 ter sido estabelecido como o Ano Internacional dos Morcegos, com o objetivo de contribuir para o reconhecimento da importância destes animais por parte da população mundial, de forma a contrariar a sua tendência de extinção, dez anos volvidos, comemora-se, em 2011/2012, o Ano do Morcego (http://www.wix.com/anodomorcego/icnb). Trata-se de uma campanha lançada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pelo Acordo para a Conservação das Populações Europeias de Morcegos (Eurobats) e visa, mais uma vez, divulgar a importância dos morcegos e da sua conservação.
O Eurobats chegou a Portugal em 1995, através de um decreto-lei realizado à luz da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migradoras Pertencentes à Fauna Selvagem (Convenção de Bona). As principais linhas de ação, que têm vindo a ser tomadas pelo ICNB, em colaboração com a Faculdade de Ciências de Lisboa, passam pela proibição da captura deliberada, do aprisionamento e da morte de morcegos, pela identificação dos locais importantes para o estatuto de conservação destes animais, pela conservação dos seus principais habitats, pelo desenvolvimento de programas de investigação e pela tomada de medidas para promover a proteção das espécies e consciencializar o público.
O dom de voar
Definitivamente, os morcegos não nasceram para se deslocar em terra, onde são bastante desajeitados e lentos. Entre o grupo dos mamíferos, apenas eles conseguiram adaptar-se com êxito ao meio aéreo. Uma proeza que, segundo os restos fossilizados mais antigos do mundo descobertos até agora, terá começado no Eoceno Superior, há cerca de 52 milhões de anos. Os cientistas que os estudaram concluíram que as asas bem desenvolvidas dessa espécie primitiva (Onychonycteris finneyi) são uma forte evidência da sua apetência para o voo.
A origem filogenética e geográfica dos morcegos permanece, no entanto, desconhecida. Não faltam hipóteses, mas são poucas as certezas. Embora se diga muitas vezes que os morcegos são “ratos com asas”, as evidências fósseis parecem afastar a hipótese de que tenham evoluído a partir dos roedores. Os estudos mais recentes apontam para que o seu ancestral evolutivo tenha sido um mamífero insetívoro, de pequeno porte e hábitos noturnos, parecido com os musaranhos e as toupeiras atuais.
Qualquer que tenha sido a verdadeira origem destes bichos, uma coisa é certa: nasceram para voar. Os seus membros anteriores (que correspondem a mãos e braços modificados), transformados em asas, são a caraterística mais visível da locomoção no ar. Os especialistas alertam, contudo, que essas asas são muito diferentes das dos insetos (que terão começado a voar há 300 milhões de anos), dos extintos répteis voadores (os pterossauros que dominaram os céus há 200 M.a.) ou até mesmo das aves (que só se tornaram voa­doras há 150 M.a.). Constata-se, assim, que o voo de todos estes distintos animais terá surgido por evolução convergente, isto é, através de estruturas anatómicas diferentes que acabaram por possibilitar a mesma função. Curiosamente, embora tenham funções diferentes, as asas dos morcegos e os braços humanos são estruturas homólogas, isto porque têm a mesma origem embriológica e ambas possuem os mesmos ossos (úmero, rádio, cúbito, carpo, metacarpo e falanges), denotando assim uma ancestralidade comum.
As asas dos morcegos, que lhes dão sustentação no ar, são rígidas, leves e impermeáveis, e correspondem a uma expansão cutânea, conhecida como “membrana alar” ou “patágio” (camada dupla de pele, desprovida de pelagem protetora, na qual existem fibras elásticas e musculares e vasos sanguíneos). Esta é suportada pelos quatro dedos longos da mão (o primeiro dedo corresponde a um polegar curto que se distingue dos restantes por possuir uma garra), que funcionam como as varetas de um guarda-chuva, estendendo-se até às patas traseiras e à coluna vertebral. Localizada entre os membros posteriores (prendendo geralmente a cauda), e funcionando como leme durante o voo, existe ainda a membrana caudal ou uropatágio. Outras caraterísticas que os tornam ligeiros e aerodinâmicos são o esterno com quilha, à semelhança das aves, os músculos peitorais fortes inseridos no esterno e nos braços e os ossos compactos e leves.
Ainda que tenham facilidade em se locomover no ar, a maioria dos morcegos faz apenas curtas deslocações noturnas para procurar alimento (todas as espécies europeias são insetívoras). Há noites, no entanto, em que chegam a percorrer áreas com pelo menos 15 quilómetros de raio, desde os abrigos até aos territórios de caça. Porém, as grandes viagens acontecem normalmente durante as migrações, quando se mudam dos abrigos de criação para os de hibernação e vice-versa. Através de anilhagem, foi possível descobrir que algumas espécies são viajantes de longo curso: o morcego-de-peluche (Miniopterus schreibersii) pode percorrer cerca de 400 quilómetros e o morcego-arborícola-grande (Nyctalus noctula) chega a atingir os 960 km, sendo o morcego-anão (Pipistrellus pipistrellus) o recordista absoluto: um exemplar anilhado na Rússia apareceu são e salvo na Bulgária, depois de percorrer 1150 km.
Ver com os ouvidos
A aptidão única de locomoção no ar ofereceu aos morcegos um admirável mundo novo, onde a competição com os outros mamíferos (todos terrestres ou aquáticos) era inexistente. Os seus hábitos noturnos, porém, levantaram problemas de orientação. Embora tenham olhos e possuam uma visão bem desenvolvida (com uma retina repleta de bastonetes, células sensíveis à baixa intensidade luminosa, que torna descabida a expressão popular “cego como um morcego”), isso de pouco lhes vale na escuridão da noite e dos abrigos subterrâneos onde muitas vezes se escondem.
O fenómeno batizado com o nome de “ecolocação” foi a solução encontrada por estes mamíferos, milhões de anos antes de o homem ter imaginado o sonar e o radar, para superar as limitações visuais no ambiente noturno. Através de adaptações morfológicas e sensoriais, que foram sendo positivamente valorizadas pela seleção natural, os morcegos desenvolveram um apurado sistema de ecolocalização (utilizado também por outros organismos, como os cetáceos e algumas aves). Este consiste na emissão de sons de alta frequência – na gama dos ultrassons (com frequência superior a 20 kHz), portanto não audíveis pelo ser humano – e na análise dos ecos recebidos do meio pelos seus ouvidos altamente sensíveis. A receção dos ultrassons faz-se através de pequenos pêlos no interior dos ouvidos, cujo desempenho é determinado por uma proteína, a prestina, codificada por um gene com o mesmo nome. Curiosamente, segundo estudos publicados há pouco, a evolução da capacidade de ecolocação nos golfinhos e morcegos parece ter seguido caminhos evolutivos paralelos, através das mesmas mutações sobre o gene da prestina.
Quando se propagam no espaço, os sons são intercetados e refletidos (na forma de eco) por todos os obstáculos (vegetação, rochedos e construções) da área envolvente e pelas potenciais presas (insetos), sendo por isso recebidos de volta com caraterísticas um pouco diferentes do ultrassom emitido. É com base nestas pequenas diferenças que os morcegos conseguem perceber – através de especializações nos centros auditivos do cérebro, que lhes permitem uma correta interpretação dos dados provenientes do biossonar – a forma e a distância a que estão dos objetos e se estes estão parados ou em movimento. Deste modo, orientam-se e detetam as presas na escuridão mediante a receção e análise do eco dos ultrassons que eles próprios emitem. Esta capacidade de criar “imagens auditivas” é uma espécie de “sexto sentido”. Pode dizer-se que os morcegos veem com os ouvidos!
As vocalizações dos quirópteros (que em determinadas circunstâncias podem ser audíveis aos ouvidos humanos), contudo, não servem apenas para orientação espacial e captura de presas: também são usadas para a comunicação e a socialização intraespecífica (que inclui sinais acústicos, olfativos e táteis). Além disso, como as propriedades físicas (frequência, duração e intervalo, etc.) dos ultrassons emitidos variam conforme as espécies, é possível usá-los para identificá-las. Esta é, aliás, a técnica mais utilizada para identificar e estudar estes discretos animais, que raramente são vistos, mas podem ser escutados com alguma facilidade, desde que se possua equipamento adequado.
Viver de pernas para o ar
O voo dos morcegos é uma atividade exclusivamente noturna ou crepuscular. Quando surge a luz, regressam a casa, para se ocultarem dos inúmeros predadores diurnos que facilmente os capturariam. Como não cons­troem os seus próprios ninhos ou refúgios, recorrem a abrigos naturais ou edificados pelo homem: fendas estreitas em rochedos, muros e pontes, telhados de igrejas e casas, habitações devolutas, cavidades nos troncos de árvores e, principalmente, grutas ou minas abandonadas (metade dos morcegos portugueses são espécies cavernícolas).
Quando pousam, fixam-se às superfícies através das garras que possuem nos membros posteriores, mantendo uma posição bastante incomum, de cabeça para baixo. Curiosamente, a adoção da suspensão e da posição invertida não implica qualquer esforço muscular, graças a um mecanismo automático de encurvamento das garras.
Os investigadores aventam duas explicações para tão estranha forma de repouso: por um lado, ficam fora do alcance de possíveis predadores, que dificilmente se conseguirão deslocar em superfícies suspensas; por outro, sobretudo no caso dos morcegos que habitam em cavernas, economizam uma enorme quantidade de espaço, podendo reunir grande número de indivíduos em sítios exíguos.
Quando o frio aperta e os insetos escasseiam, o que costuma acontecer a partir do final do outono, os morcegos são obrigados a hibernar. Entram assim numa letargia forçada, permanecendo imóveis (com as asas a cobrir o corpo como casacos naturais), reduzindo ao mínimo o seu metabolismo e os gastos energéticos e consumindo lentamente as reservas de gordura acumuladas durante os meses quentes. Se a hibernação for frequentemente interrompida (por exemplo, pelas atividades humanas), as reservas energéticas serão mais rapidamente consumidas, podendo não ser suficientes para assegurar a sobrevivência até à primavera seguinte. Quando isto acontece, os animais morrem.
Fecundação retardada
Além dos abrigos de hibernação (geralmente, grutas e minas), que são por norma usados por um elevado número de indivíduos em letargia, os morcegos possuem ainda abrigos de criação, que são ocupados sobretudo por colónias de fêmeas reprodutoras ativas, durante a fase final de gravidez, o nascimento e o desenvolvimento dos jovens, e abrigos intermédios de primavera e outono, correspondentes aos refúgios procurados entre as épocas de criação e de hibernação. Regra geral, verificam-se migrações sazonais (muito comuns nas espécies cavernícolas portuguesas) entre os diversos abrigos, que podem distar apenas algumas centenas de metros ou dezenas de quilómetros.
Durante a época de reprodução, algumas grutas chegam a acolher colónias com milhares de indivíduos de diferentes espécies. Ainda que cada uma delas possua distintas estratégias reprodutivas, todas partilham um fenómeno surpreendente (exclusivo dos morcegos insetívoros), denominado “fecundação retardada”. Explica-se da seguinte forma: no acasalamento, que ocorre predominantemente no outono, as fêmeas recolhem o esperma; no entanto, não o utilizam de imediato, mas armazenam-no no útero durante todo o período letárgico; apenas na primavera seguinte, quando o clima aquece e volta a existir abundância de alimento, é que o utilizarão para fertilizar os seus óvulos. Este mecanismo fisiológico de armazenamento de espermatozóides tem despertado enorme interesse na comunidade científica, especialmente nos investigadores relacionados com a reprodução medicamente assistida e com o transplante de órgãos.
Cerca de 40 a 60 dias após a fecundação (geralmente, em fins de maio ou princípios de junho), ocorre o parto. A fêmea prende-se ao teto da gruta, com as garras dos seus quatro membros, e recolhe a cria com o uropatágio. Esta vem ao mundo nua e cega, e somente após alguns dias começará a crescer-lhe uma pelagem macia e acinzentada e os olhos se abrirão. Como acontece com todos os mamíferos, será zelosamente amamentada durante os primeiros tempos de vida, acabando por adquirir o aspeto adulto em poucos meses. A maturidade sexual, porém, apenas será atingida ao fim de dois anos (quatro anos em algumas espécies, como o morcego-de-ferradura-grande, Rhinolophus ferrumequinum). Este facto é muito importante, porque contribui para uma baixa capacidade de regeneração das populações, uma vez que muitos indiví­duos acabam por morrer sem terem sequer começado a reproduzir-se. Além disso, como ao longo da sua evolução a maioria das espécies foi submetida a uma reduzidíssima pressão predatória, possuem também uma baixa taxa de reprodução (uma única cria por ano).
A maturação sexual tardia e a taxa de reprodução baixa parecem, todavia, ser compensadas com uma grande longevidade. Algumas espécies, como o morcego-de-ferradura-grande, podem alcançar os trinta anos de idade, embora a esperança média de vida ronde os vinte anos (mesmo assim, muito superior aos doze meses dos roedores de igual tamanho). Logo, em proporção ao seu tamanho (comprimento corporal entre 3,5 e 10 cm), os morcegos são, sem sombra de dúvida, os mamíferos com maior longevidade.
Animais malditos
Poucos animais têm sido encarados com tanto ódio (exceção feita talvez ao lobo, aos répteis e às aranhas) como os morcegos. No entanto, esta animosidade secular parece ter causas muito variadas, assentes, principalmente, na sua aparência e nos seus hábitos de vida. Desde logo, o seu aspeto: são “feios”, segundo as noções estéticas da maioria dos humanos. Além disso, são “estranhos”: gostam da noite, dormem de pernas para o ar e habitam em locais escuros e recônditos; são “perigosos”, pois agarram-se aos cabelos e transmitem doenças; são “criaturas do demónio”, porquanto existe um pacto entre estes animais e Satanás (amiúde, representa-se o diabo com asas de morcego, enquanto os anjos ostentam asas de aves), sendo por isso mesmo prenúncios de morte e azar; são “vampiros sanguinários” que chupam o sangue às pessoas enquanto dormem (relembra-se que toda as espécies europeias são insetívoras!); têm “poderes mágicos”, pelo que foram historicamente usados na confeção de poções de amor, de bebidas que possibilitavam a obtenção de várias aptidões ditas “paranormais” ou até mesmo para a cura de tumores, artrites e doenças de visão, entre outras. Enfim, um rol de inverdades, mitos e crenças infundadas (ampliadas pela literatura e pelo cinema de ficção: quem não se lembra do Drácula?), que em muito contribuiu para denegrir a sua imagem junto do público e para o seu desprezo, durante décadas, em termos de conservação.
Ainda há quem acrescente que, além de serem “feios, porcos e maus”, os morcegos “não servem para nada”. Porém, de modo algum poderemos subestimar a sua importância ecológica e o inestimável serviço que nos prestam. Além de inofensivos, eles são na verdade inseticidas naturais muito eficazes, pois contribuem para o controlo dos insetos responsáveis por pragas agrícolas ou pela transmissão de doenças e para o equilíbrio dos ecossistemas. Cada morcego consome, por noite, mais de metade do seu peso em insetos. Feitas as contas, se considerarmos todas as espécies, estamos a falar de uma significativa importância económica, devido às dezenas de toneladas de insetos prejudiciais exterminados diariamente.
Os morcegos são também essenciais para a subsistência dos ecossistemas cavernícolas, onde se encontram comunidades de invertebrados singulares que apenas habitam nas grutas naturais. Estes organismos, ainda insuficientemente conhecidos, parecem estar totalmente dependentes da matéria orgânica (excrementos depositados no chão das cavernas) transportada pelos seus vizinhos alados.
No entanto, e para que conste, nem todas as civilizações abominam os morcegos. Na China e no Japão, por exemplo, eles são vistos com outros olhos, e por isso considerados como símbolos de sorte e de longa vida, surgindo frequentemente a ornamentar objetos. Mais perto de nós, na cidade espanhola de Valência, o morcego também serve de mascote, surgindo a sobrevoar a coroa real do brasão de armas. Contudo, estas são situações excecionais que parecem apenas ajudar a confirmar a regra: os morcegos têm sido, desde tempos imemoriais, animais excomungados.
Preciosidades a presevrar
Conhecem-se cerca de 1200 espécies de morcegos em todo o mundo. Destas, vivem 40 na Europa, das quais 27 ocorrem em território português, constituindo quase 40 por cento da fauna de mamíferos terrestres do país. Enquanto determinadas espécies se conseguiram adaptar bem à progressiva humanização da paisagem, outras (infelizmente, a maioria) têm vindo a regredir, estando mesmo à beira da extinção. No território continental, as mais ameaçadas são o morcego-rato-pequeno (Myotis blythii), o morcego-de-ferradura-mourisco (Rhinolophus mehelyi) e o morcego-de-ferradura-mediterrânico (Rhinolophus euryale).
Segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, apenas seis espécies são consideradas com estatuto de “pouco preocupante”; das restantes, muitas têm estatuto de “criticamente em perigo” ou “em perigo”, ou são consideradas “vulneráveis”. Registe-se que para nove espécies a informação disponível ainda é insuficiente para se poder avaliar as suas tendências populacionais. No entanto, independentemente do seu estatuto de amea­ça, todas as espécies estão protegidas por legislação nacional (desde 1967, por um decreto que reconhece a necessidade de proteger os morcegos) e internacional (Diretiva Habitats, Convenção de Berna e Convenção de Bona, de que resultou o Eurobats).
Mais de metade dos morcegos portugueses são cavernícolas, sendo também, curiosamente, os mais ameaçados. De acordo com o ICNB, esta situação resulta da reduzida capacidade de recuperação (conferida pela tardia maturidade sexual e pela baixa taxa de reprodução) e do seu caráter colonial, sobretudo durante as épocas de criação e hibernação, quando as colónias chegam a atingir milhares de indiví­duos concentrados numa única gruta. Assim, não é de estranhar que a destruição e perturbação dos abrigos, afetando de uma só vez inúmeros indivíduos, sejam as principais amea­ças para estas espécies que escolheram viver em cavernas.
A lista de fatores que afetam os morcegos é, porém, muito mais vasta: inclui igualmente a destruição e fragmentação das áreas de alimentação, sobretudo das florestas de folhosas autóctones, das galerias ripícolas e da vegetação nos habitats ribeirinhos, com consequente diminuição do alimento disponível; a poluição, nomeadamente por pesticidas e fertilizantes utilizados na agricultura, que afeta a qualidade do solo e da água (diminuindo a ocorrência dos insetos aquáticos, por exemplo) e envenena juvenis e adultos devido à bioacumulação; os incêndios e a desflorestação, que afetam principalmente as espécies arborícolas; e a pressão antropogénica, resultante de atividades turísticas, como a espeleologia, da exploração eólica (segundo vários estudos, esta pode acarretar uma considerável perturbação ou destruição dos abrigos, perturbação ou perda de áreas de alimentação ou de corredores de migração e alguma mortalidade, por colisão dos morcegos com os aerogeradores) e dos atropelamentos (dado que muitas espécies voam muito próximo do solo), entre outros.
Alguns autores têm vindo a salientar que os quirópteros são excelentes indicadores da qualidade da natureza, devido à sua longevidade, pequeno tamanho, mobilidade e exigências ambientais.
Apesar do aumento do conhecimento sobre os morcegos e do muito que já se fez em Portugal, ainda há um longo caminho a percorrer até que se consigam criar planos efetivos para a conservação de todas as espécies ameaçadas. Uma das prioridades continuará a ser a mudança da sua imagem pública: pelas suas singularidades biológicas e pelo inestimável serviço prestado ao equilíbrio dos ecossistemas e à humanidade, os senhores da noite merecem todo o nosso respeito.
J.N.

Morcegos em casa
Sabia que os morcegos podem entrar-nos pela casa adentro? Se tal acontecer, o guia Tenho Morcegos em Casa, o que Devo Fazer?, disponibilizado pelo ICNB, deixa algumas informações e conselhos.
Os morcegos não são agressivos e não atacam, mas, sendo animais selvagens, podem assustar-se e reagir se tentarmos capturá-los (deve evitar-se pegar-lhes, devido ao perigo de se ser mordido; se for mesmo necessário tocar-lhes, use sempre luvas).
Na maioria das vezes, os morcegos entram nas casas por engano, pelo que devemos facilitar a sua saída: se for de noite, deve isolar-se a divisão, abrir as janelas e desligar a luz, deixando-o sair sozinho; se for de dia, deve ser capturado com uma caixa de cartão e libertado durante a noite (desde que não esteja a chover ou faça muito frio ou vento), num sítio calmo e sem luz.
Se o animal estiver ferido ou não voar, deve contactar-se a área protegida mais próxima, para que seja recolhido pelos técnicos.
Todavia, algumas espécies podem visitar-nos de forma mais prolongada, hospedando-se nas nossas casas, geralmente em pequenas fendas (basta um espaço de 2 por 1,5 centímetros para um morcego-anão, e de 5 por 2,5 cm para as outras espécies), caixas de estore, aberturas debaixo das varandas, sótãos e caves. A confirmação da presença de morcegos num edifício pode ser feita por observação direta (difícil durante o dia, sobretudo no caso de espécies que se abrigam em fendas), pela escuta dos seus guinchos (particularmente audíveis nos meses quentes e no caso de colónias numerosas) ou pela presença de guano (os excrementos dos morcegos distinguem-se dos de outros animais por ficarem reduzidos a pó se forem esmagados, uma vez que são constituídos quase exclusivamente pela quitina dos insetos). O guano que venha a ser recolhido pode ser utilizado como fertilizante, e é considerado um excelente adubo.
De acordo com os especialistas, não há problemas em coabitar com morcegos, desde que se tenham dois cuidados: não tocar no guano e na urina (não sendo comum a propagação de doenças através de excrementos, os contatos acidentais com a boca podem causar infeções gastrointestinais) e não mexer nos animais. Segundo o ICNB, “apesar de algumas espécies de morcegos poderem transmitir raiva por mordedura, arranhadela ou contacto com olhos, nariz ou boca, são muito raros os casos de transmissão dessa doença aos seres humanos”. Porém, no caso de alguém ser mordido ou arranhado por um morcego, a ferida deve ser imediatamente lavada com água e sabão e deve-se contactar um médico; se possível, o animal deve ser capturado vivo e mantido numa caixa de cartão, para ser analisado.
Quando as colónias são numerosas e provocam estragos elevados ou constituem perigo para a saúde pública, poderá ser necessário afastá-las dos edifícios. “Tendo em conta que todas as espécies de morcegos estão protegidas por lei, quaisquer ações de exclusão têm de ser autorizadas”, adverte o ICNB, que é a entidade a quem cabe autorizar tais operações de despejo (talvez não seja demais recordar que o abate ou a captura ilegal de morcegos são práticas proibidas). Quaisquer trabalhos de exclusão, devidamente autorizados, só devem ser feitos fora das épocas de criação e de hibernação, podendo ocorrer de 15 de março a 30 de abril, ou entre 20 de agosto e 30 de novembro.
Algumas pessoas, mais sensibilizadas para a importância ecológica dos morcegos, gostam de tê-los por perto. Uma estratégia para os atrair (ou para aumentar a probabilidade de determinados edifícios não serem de novo invadidos), passa pela colocação de abrigos artificiais nas paredes exteriores, nos rebordos dos telhados ou nas imediações das casas. O ICNB informa que “este tipo de abrigo já foi colocado nalgumas zonas do país, tendo algumas caixas atraído com sucesso centenas de indivíduos (foram já contabilizados 238 morcegos numa caixa-abrigo colocada no Algarve)”.
A sã convivência entre humanos e morcegos não só é possível como desejável. Um notável exemplo é o facto de centenas de morcegos vigiarem, desde que há memória, duas das mais antigas bibliotecas de Portugal: a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e a do Palácio de Mafra. Voando livremente nesses espaços bibliotecários, capturam os insetos e asseguram, com a sua inestimável presença, a preservação de documentos centenários e livros valiosos, que permanecem em ótimo estado de conservação. Em contrapartida, as mesas de leitura têm de ser cobertas durante a noite, para evitar que o guano se deposite sobre elas; pela manhã, recolhem-se as coberturas e varre-se o solo.
Se tiver a sorte de a sua casa ou o seu jardim serem escolhidos pelos morcegos, agradeça a honra e (chiu!) faça pouco barulho no inverno, para não os acordar. Verá como lhe retribuirão a boa vizinhança durante o verão, quando cada um deles devorar mais de 500 insetos por dia. Nenhum outro inseticida será tão eficaz e saudável como os seus amigos voadores.

SUPER 163 - Novembro 2011

domingo, 28 de outubro de 2012

O poder das ondas


Cinco factos
1.      Fonte de energia: O parque de ondas de Aguçadoura, ao largo da Póvoa de Varzim, foi pioneiro a nível mundial.
Espera-se que volte a funcionar no início de 2011.
2.      Altura recorde: A 9 de Julho de 1958, foi registada uma onda com mais de 500 metros de altura na baía de Lituya, no Alasca (EUA). É a vaga mais alta de que há registo.
3.      Origem do tsunami: A palavra vem do Japão, onde o fenómeno é frequente. As ondas gigantes podem ser provocadas por um tremor de terra submarino, uma erupção vulcânica ou um tufão.
4.      Velocidade: A velocidade de um tsunami depende da profundidade das águas. Pode ultrapassar os 800km/h no oceano profundo mas abranda para 30 a 50Km/h perto da costa.
5.      Inundação assassina: O tsunami de Dezembro de 2004, no Índico, chegou a muitos locais não sob a forma de ondas gigantes, mas como uma inundação ou um rio extremamente poderosos.
Um tsunami pode atravessar o oceano Pacífico em menos de 24 horas.
Fonte: quero saber Outubro 2010

sábado, 27 de outubro de 2012

A formação das ondas


Nascidas da transferência de energia do vento para a água, as ondas são um fenómeno natural poderoso… e também muito perigoso.
As ondas são formadas principalmente á superfície do mar, pelos ventos que transferem energia para as partículas de água.
A transferência de energia faz com que as partículas de água adquiram um movimento circular repetitivo, fundindo-se depois para formar a ondulação. Quando a ondulação passa sobre a inclinação acentuada do terreno costeiro, as ondas são obrigadas a subir e a distância entre as cristas diminui. As ondas tornam-se instáveis, deixam de conseguir suportar o seu próprio peso e “rebentam”.
A formação das ondas é afectada pela profundidade da água e pelas velocidades da corrente e do vento. As ondas são também afectadas pela deslocação vertical da água, da qual o tsunami é o exemplo mais devastador. Esta enorme deslocação de água, criada por maremotos ou deslizamento de terras subaquáticos, transfere energia de forma diferente, resultando não num movimento circular mas antes num movimento consistente para a frente. Normalmente, as ondas de um tsunami não arrebentam quando atingem as zonas costeiras, dando origem a vagas de extensão monumental, contendo níveis de energia capazes de graus de destruição elevados.
Uma onda individual caracteriza-se por duas partes: a cava, o ponto mais baixo; e a crista, a altura máxima. Á distância entre duas cristas – ou duas cavas – sucessivas dá-se o nome de comprimento de onda. O intervalo de tempo entre cristas sucessivas é o período de onda. As ondas dividem-se em duas categorias, definidas pela relação entre o comprimento de onda e a profundidade da água. Se esta relação for pequena, temos uma onda de água profundas. Caso contrário, temos uma onda de águas baixas.
Fonte: quero saber Outubro 2010