sábado, 20 de outubro de 2012

Qual é o tamanho do buraco na camada de ozono?


O buraco do ozono refere-se a uma área de diminuição da camada de ozono estratosférico sobre a Antárctida. O ozono do planeta regista um declínio de 4% por década em volume total, mas perdas bem mais significativas registam-se no ozono estratosférico, sobre a região polar, ainda que seja uma situação sazonal.
As condições atmosféricas singulares desta zona propiciam o maior impacto: ventos fortes sopram em volta do continente, formando um vórtice polar e isolando o ar sobre a Antárctida do resto do mundo. Isto permite que as nuvens estratosféricas polares, que concentram poluentes atmosféricos, se formem a cerca de 24 km de altitude. Com a Primavera, após um período sem sol, o ozono sofre uma diminuição, originando-se o “buraco do ozono”.
Em Setembro de 2006, a área do buraco atingiu 29,46 milhões de km², segundo a NASA; em 2009 era de 24 milhões de km².
O ozono foi originariamente descoberto e baptizado por Christian Friedrich Schönbein, em 1840.
Fonte: quero saber Outubro 2010

Últimos uivos




O maior carnívoro português
Alvo de mitos e perseguições ancestrais, o lobo-ibérico continua a lutar pela sobrevivência. Já só restam cerca de trezentos em Portugal. O biólogo Jorge Nunes leva-nos às remotas zonas montanhosas onde se refugiam as últimas alcateias e conta-nos toda a verdade sobre o “bicho mau”.
No passado dia 30 de Maio, milhares de alunos do 9.º ano de escolaridade fizeram pela primeira vez um teste intermédio de Ciências Naturais, disponibilizado a todas as escolas do país pelo Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério de Educação com o propósito de aferir o desempenho dos estudantes nessa disciplina. Obviamente, por si só, este facto não mereceria destaque nas páginas da SUPER, mas quis o destino que uma mão cheia de perguntas estivesse relacionada com lobos, começando com um texto introdutório de que extraímos o seguinte excerto: “Foi desenhado, por um grupo de alunos de uma escola portuguesa, um projecto de Educação Ambiental: o projecto LOBO (…) teve como objectivos determinar a distribuição e a densidade populacional do lobo na serra da Aboboreira.” Findos os noventa minutos de exame, muitos alunos questionavam-se pelos corredores e recreios sobre a veracidade do texto que tinham lido e interpretado: “Mas ainda existem mesmo lobos em Portugal?”
Trago à colação esta vivência escolar porque entendo que espelha bem a situação ambígua em que têm vivido os lobos no nosso país. Se, por um lado, têm sido motivo de estudo e preo­cupação para alguns investigadores e naturalistas amadores (a propósito, o texto referia-se aos alunos e ao professor Manuel Nunes, da Escola EB 2,3 de Vila Caiz, em Amarante, que levaram por diante o meritório projeto), por outro, são animais quase totalmente desconhecidos da maioria da população portuguesa, que tem acerca deles superstições pouco condizentes com a realidade.
O animal que a maioria das pessoas conhece é apenas o lobo mau das estórias e lendas. E, afinal, quem é o lobo real? Será mesmo o bicho papão das histórias infantis? Por que tem sido tão perseguido? Onde e como (sobre)vive? O que tem sido feito para o proteger? Estas são algumas das dúvidas de alunos, professores e muitos outros portugueses. Conheça finalmente o maior predador da fauna portuguesa, que é também, desafortunadamente, um dos mais raros!
Retrato de um predador
À primeira vista, o lobo-ibérico (Canis lupus signatus) poderá confundir-se com um cão de grandes dimensões. O que não é de admirar, uma vez que pertencem ambos à mesma família (Canidae), onde também se inclui a raposa, e ao mesmo género (Canis). Pensa-se que o lobo se encontrava entre as primeiras espécies domesticadas pelo homem, dando origem ao cão doméstico (Canis lupus familiaris), o qual acabou por produzir, através de exaustiva seleção artificial, diversas raças extremamente variáveis em termos morfológicos.
Uma observação mais cuidada permitirá, no entanto, notar marcas distintivas entre cães e lobos. Assim, o lobo apresenta uma cabeça volumosa, de aspeto maciço, de onde sobres­saem as orelhas pequenas e os olhos oblíquos, de cor âmbar. O focinho, geralmente ruivo, mostra uma região mais clara que vai desde a garganta até ao ângulo externo do olho. A pelagem varia entre o cinzento-escuro e o castanho (usualmente mais escura no inverno do que no verão), sendo na maior parte dos indivíduos castanha-amarelada. No dorso, surge uma linha negra, que se estende do pescoço à cauda, bem desenvolvida. O ventre é claro. As patas são fortes e robustas e as dianteiras ostentam duas manchas escuras nítidas na região anterior. Quanto às dimensões, é o mais pequeno de todos os lobos (existem três espécies a nível mundial: o lobo-vermelho, o lobo-da-Etiópia e o lobo-cinzento, a que pertence o lobo-ibérico, subespécie endémica da Península). A altura ao garrote é de 70 a 80 centímetros, o comprimento total é de cerca de 1,20 metros e o peso ronda geralmente os 30 quilos nas fêmeas e os 40 nos machos.
Porém, os atributos do grande predador não se cingem aos seus aspetos morfológicos visíveis. No interior da sua boca, escondem-se 42 dentes afiados que, em conjunto com as possantes mandíbulas, lhe permitem despedaçar os ossos e rasgar a carne das presas com relativa facilidade. Usando os incisivos e os caninos, conseguem abocanhar e abater animais três vezes maiores do que eles próprios.
A compleição física, associada às caraterísticas do seu sistema cardiorrespiratório, permite-lhe ainda outras habilidades dignas de um distinto atleta. Além de poder dar saltos de aproximadamente cinco metros, é capaz de percorrer 60 quilómetros numa única noite, de acelerar até 50 quilómetros por hora em apenas alguns segundos e de manter uma velocidade média de cerca de 40 km/h durante períodos consideráveis.
Para completar o arsenal mortífero, há que referir também os órgãos dos sentidos, em especial a visão, muito apurada, sobretudo em situações de luz escassa, como sejam o amanhecer e o anoitecer, e com um campo visual de 250 graus (o humano não vai além de 180 graus), o olfato, que lhe facilita a leitura e interpretação do mundo em seu redor (detetar inimigos, como o homem, perseguir o rasto das presas, reconhecer os odores das fezes e da urina utilizados para marcar os territórios e identificar os membros da alcateia) e a audição, um ouvido sensível que lhe permite encontrar as presas e comunicar a longa distância, através dos uivos caraterísticos.     
A sua reputação como exímio caçador é tal que, “se os cientistas do século XXI decidissem criar um robô capaz de detectar e perseguir uma presa até a deixar sem vida, dificilmente conseguiriam construir uma máquina mais eficaz que o lobo”, afirma Paulo Caetano no seu livro Lobos em Portugal. O mesmo autor refere ainda que “cada traço do seu ser, cada particularidade do seu corpo, cada característica física (…) contribui para o tornar um predador de excelência”.
Seres sociais
Contudo, os lobos não são apenas habilíssimos caçadores, são também animais sociais muito cooperativos. Vivem em alcateias, grupos familiares fortemente hierarquizados, geralmente constituídos por um casal reprodutor que lidera o grupo (a que os biólogos chamam “casal alfa”) e pelos restantes lobos, grosso modo crias do ano e filhos e filhas de anos anteriores. Dado que atingem a maturidade sexual aos dois anos, pelo menos até essa idade permanecem na alcateia (alguns abandonam-na a partir desse momento com o intuito de procurar parceiro sexual, encontrar território próprio e formar novas comunidades).
O número de membros nas alcateias portuguesas é bastante variável, podendo ir de apenas dois (o casal alfa) até vinte e um, sendo de cinco ou seis indivíduos o valor médio. Independentemente de quantos sejam, cabe-lhes caçar e defender o território em grupo, respeitando sempre a hierarquia rígida e bem definida, que só costuma ser abalada quando o alimento ou o espaço escasseiam e os lobos que estão abaixo na cadeia hierárquica começam a afrontar a liderança. Por vezes, principalmente no período de cio, podem registar-se também mudanças no comando motivadas por jovens lobos que se impõem, destronando o macho alfa e assumindo o seu lugar (o estatuto de macho dominante pode manter-se durante alguns anos ou ser apenas temporário e durar escassos meses).
Ao casal alfa compete tomar todas as decisões coletivas, como os momentos, locais e estratégias de caça ou os lugares e períodos de descanso ou de deslocação pelo território. São também os únicos que podem reproduzir-se (embora o macho beta, imediatamente abaixo do alfa, também possa copular com a fêmea dominante). A fêmea alfa impede, com agressividade, que as restantes lobas da alcateia tenham grandes intimidades com o macho dominante, garantindo que durante o seu reinado todos os lobitos da alcateia sejam exclusivamente seus filhos.
A época de acasalamento ocorre apenas uma vez por ano, habitualmente entre fevereiro e março. Após cerca de 60 dias de gestação, nascem as crias, geralmente entre quatro e seis (conhecidas como “lobachos”). Após um mês de amamentação, os pequenos lobos passam a ser alimentados e protegidos por toda a alcateia. Por volta de outubro, com cerca de seis meses, começam a acompanhar o grupo nas suas deslocações pelo território.
A coesão no interior da alcateia é assegurada por um conjunto de comportamentos que lembram constantemente a hierarquia social, visível sobretudo no momento das refeições. O primeiro a aceder à comida é o casal alfa, seguido do macho beta, e só depois os restantes membros da família que se impõem pela idade, sexo e força física. Em suma, querem-se boas maneiras no momento da alimentação, devendo cada membro respeitar a sua vez. Quem se atrever a furar a fila acabará por ser severamente repreendido.
O mais das vezes não é necessário chegar a confrontos físicos para manter cada um no seu lugar e a ordem no grupo. Segundo os especialistas em comportamento animal, são muitos os sinais e atitudes que permitem a comunicação entre os companheiros, aspeto fundamental para o grupo coexistir e se entender. Entre eles, destacam-se as expressões faciais (orelhas para trás indicam medo, espetadas indiciam atenção ou ameaça), as vocalizações (que podem ir de latidos de cumprimento até uivos de domínio territorial), as posições corporais (arrastar-se em submissão ou assumir posição altiva de domínio) e os posicionamentos da cauda (elevada no dominante e colocada entre as pernas no submisso), entre outros.
O que vem à rede é… carne
Toda esta linguagem corporal é particularmente útil durante as caçadas, quando a alcateia reúne esforços e coletivamente persegue, captura e abate as suas presas. Essas são muito variáveis, podendo ir de ungulados selvagens (sobretudo corços e veados), que constituem a sua dieta principal, até javalis, lebres, coelhos, raposas ou ginetas. E, quando a fome aperta, não desdenham alimentar-se de ratos, pássaros, rãs, répteis e até mesmo de insetos, como grilos e gafanhotos. Em casos extremos, para continuarem a sobreviver, podem abandonar a caça devido à falta de presas e tornar-se necrófagos. A captura de animais muito grandes (até três vezes superiores ao seu tamanho) só é possível justamente pelo esforço coletivo: a união faz a força!
Ainda que os instintos predatórios sejam inatos na espécie, garantem os etólogos, as brincadeiras, os jogos de luta e as caçadas simuladas ajudam a acicatá-los durante os primeiros meses de vida. Logo que têm idade e corpo, os lobachos começam a acompanhar os adultos nas expedições de caça, pois há imenso para aprender (saber identificar as presas certas, como caçá-las, matá-las rapidamente e sem perigo, e ainda como esquartejar e aproveitar as carcaças) e nada substitui as lições práticas. A alcateia é a escola: observando os mais velhos e imitando os seus comportamentos, os juvenis aumentam a sua mestria na arte das caçadas.  
Os problemas começam a surgir quando o homem invade os seus territórios e dizima as presas naturais, sobretudo através da caça. Ante a escassez destas, o lobo aproxima-se das povoações e começa a caçar o gado e os animais domésticos. Em desespero, a sua alimentação passa a fazer-se de ovelhas, cabras, vacas, galinhas e até cavalos (que, diga-se em abono da verdade, até são bem mais fáceis de caçar do que os selvagens).
Como é bom de ver, estas situações podem causar avultados prejuízos pecuniários às frágeis comunidades rurais e pastoris e são geradoras de ódios e conflitos com as populações: o “lobo mau” torna-se de novo um alvo a abater, apesar de ser uma espécie em perigo de extinção, totalmente protegida desde 1998, e de integrar todas as convenções de proteção da vida selvagem: o Anexo II da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção), o Anexo II da Convenção de Berna (Convenção Relativa à Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa) e a Diretiva Habitats (92/43/CEE), onde consta dos Anexos II e IV como “espécie prioritária”.
Em Portugal, é proibido o abate ou captura de lobos e a destruição ou deterioração do seu habitat. Entre as responsabilidades do estado português na conservação e proteção efetiva do lobo, contam-se aspetos como a adoção de uma política de ordenamento do território que não desfigure os habitats da espécie, a promoção de ações de sensibilização da opinião pública, com vista à erradicação de infundados temores e à modificação de atitudes e comportamentos, e a indemnização dos cidadãos que venham a ser considerados como diretamente prejudicados pela ação do lobo. Medidas que nem sempre é fácil levar do papel para o terreno.
Mata que é lobo!
Outrora, o seu uivo percorria o país de Norte a Sul. Hoje, as regiões mais recônditas e montanhosas a norte do Douro são o seu principal, e quase único, refúgio. Mesmo aí, continua a viver acossado, tentando passar despercebido e evitando a todo o custo o contacto com os humanos. Digamos que é uma medida preventiva para evitar males maiores, uma vez que, durante milénios (desde o Paleolítico Superior que o lobo e o homem coexistem em Portugal), a maioria dos encontros acabaram quase sempre em perseguição e morte do pobre animal.
Quando o objetivo era abater o “bicho daninho”, como lhe chamavam algumas populações rurais, valia tudo. Desde as matilhas de cães treinados para defender os rebanhos até às armadilhas, passando pelos iscos envenenados e pelas armas de fogo. Se, nos métodos ditos tradicionais, a luta, não sendo justa, poderia ainda dar alguma esperança de fuga e sobrevivência ao perseguido, com o advento das armas de fogo, a partir da década de 1930, os humanos tornaram-se verdadeiramente demolidores. O estudo Lobos em Portugal, 1933/1957, publicado em 1971 por Eric Flower, é disso um bom exemplo, ao referir o número de lobos abatidos por distrito nesse período: 172 em Bragança, 222 na Guarda, 112 em Portalegre, 126 em Viana do Castelo, 225 em Vila Real, 159 em Viseu, 28 em Évora, 18 em Santarém (convém referir que por essa altura o lobo ainda estava presente em todos os distritos portugueses, à exceção de Lisboa, estimando-se que existissem cerca de 800 animais).
Porém, o ódio aos bichos uivadores é tão ancestral que, mesmo antes do surgimento das devastadoras espingardas, já o engenho humano procurava formas eficazes de dizimar a besta, não se poupando a esforços para o conseguir. Entre as obras mais notáveis de combate aos lobos contam-se os fojos, que as populações atormentadas semearam desde a Idade Média pelo Noroeste Ibérico. Eram armadilhas em pedra, construídas geralmente nas encostas dos montes, simples e letais. Existiam essencialmente dois tipos: os fojos de paredes convergentes (corredores delimitados por duas paredes que convergem para um fosso, onde os lobos ficavam aprisionados até serem chacinados à pedrada ou a tiro) e os fojos “de cabrita” (geralmente círculos de altos muros em pedra, onde eram colocadas cabras, ovelhas ou cães como iscos vivos que atraíam os lobos para uma morte certa).
Em Portugal, os fojos foram utilizados pelo menos até meados do século XX: o último “de cabrita” a ser usado foi o do Outeiro (com 72 metros de diâmetro, o maior da Península Ibérica), que em 1917 ajudou a matar dois exemplares; a derradeira batida num fojo de paredes convergentes aconteceu no Soajo, já no final da década de 1970. Hoje, esses monumentos ao abandono nada mais são do que memórias distantes e quase esquecidas que apenas alguns pastores e caminheiros destemidos ousam contemplar. 
Territórios lobeiros
No início do século XX, o lobo-ibérico ocorria em quase todo o território continental. No entanto, os fatores antrópicos já referidos (a que acresce ainda a destruição dos habitats e a fragmentação dos territórios das alcateias devido a novas estradas e vias rápidas) levaram a uma inquietante regressão da sua distribuição, do litoral para o interior e de sul para norte.
Na década de 1960, os lobos ainda ocorriam no Algarve, no Alentejo e no vale do Tejo, além do Centro e do Norte do país. Porém, de acor­do com o último censo nacional do lobo, efe­tua­do em 2002/2003, a área de distribuição atual da população lupina representa apenas cer­ca de 20 por cento da original. Ainda que os ter­ritórios de cada alcateia possam ter vários qui­lómetros de extensão (em Portugal, variam en­tre os 150 e os 300 quilómetros quadrados), os bosques, os penedos sobranceiros aos cursos de água e as encostas arborizadas são os seus locais preferidos.
Os lobos subsistem atualmente apenas nas serras mais agrestes do Norte e do Centro de Portugal (caraterizadas por uma baixa densidade populacional humana e por uma importante atividade agropecuária), tendo os seus principais e mais estáveis núcleos de ocorrência nas montanhas que constituem o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o Parque Natural de Montesinho e o Parque Natural do Alvão. Segundo o biólogo Francisco Álvares, investigador do Grupo Lobo (http://lobo.fc.ul.pt, uma associação não-governamental fundada em 1985), “devido à sua estabilidade, estas populações são uma fonte regular de animais dispersantes, tendo por isso uma influência determinante na manutenção das alcateias que ocorrem nas regiões envolventes, caraterizadas por uma maior instabilidade”.
Um dos desafios colocados à conservação da espécie é que a distribuição em Portugal não é contínua, existindo duas populações separadas, estimadas em 65 alcateias, a que correspondem aproximadamente 300 lobos. A que se localiza a norte do rio Douro conterá cerca de 270 indivíduos (abarca os distritos de Viana do Castelo e Braga, uma pequena franja do distrito do Porto, na confluência do sistema montanhoso Marão-Alvão, e os distritos nordestinos de Vila Real e Bragança) e parece ser estável, dado que está em contato com a população lupina espanhola, estimada em cerca de 2500 exemplares. A outra é pequena e encontra-se isolada a sul do Douro (nos distritos de Viseu, Guarda, Aveiro e Castelo Branco), com aproximadamente 30 animais que se encontram em iminente perigo de extinção.
Luta pela sobrevivência
Uma vez que a caça está totalmente proibida em Portugal, a convivência do lobo com as comunidades rurais e pastoris é, na atualidade, um dos principais fatores que colocam em risco a sua preservação: de quando em vez, os lobos famintos atacam animais domésticos e rebanhos, provocando prejuízos que motivam a revolta das populações e a atenção dos órgãos de comunicação social.
Do ponto de vista legal, não se justifica tanto alarido, uma vez que a legislação que visa a proteção do lobo prevê indemnizações (têm sido gastos cerca de 700 mil euros por ano) pelas perdas resultantes dos ataques lupinos. O problema agudiza-se quando os proprietários são negligentes no resguardo dos seus animais (“só há lugar a pagamento de indemnizações quando os animais estiverem guardados por pastores e com um cão por cada cinquenta cabeças de gado ou quando mantidos em locais que os confinem”, lê-se na legislação), quando os ataques imputados ao lobo são, afinal, cometidos por matilhas de cães assilvestrados, logo não passíveis de indemnização, ou quando os processos indemnizatórios se arrastam em teias burocráticas que fazem desesperar os lesados. Nesses casos, as comunidades prejudicadas tentam fazer justiça pelas próprias mãos, perseguindo o lobo (caçando-o ou envenenando-o) ao arrepio da lei.
Uma forma curiosa de tentar apaziguar os conflitos tem sido através do projeto Cão de Gado, lançado em 1994 pelo Parque Natural de Montesinho. Tratava-se de uma iniciativa que visava a oferta e utilização, pelos criadores de gado, de cães apropriados para a defesa dos rebanhos contra os ataques de lobo. Desde 1996, passou a ser uma iniciativa promovida igualmente pelo Grupo Lobo, que tem comprado cães das raças castro-laboreiro e serra-da-estrela para oferecer aos pastores (já foram dados mais de 230 cães). Tanto os pastores como os mentores da iniciativa têm demonstrado satisfação com o projeto, liderado pelo professor Petrucci-Fonseca, galardoado com o Prémio BES Biodiversidade 2010.
Além da perseguição humana, outras causas silenciosas, como a destruição do habitat e a fragmentação do território, têm contribuído igualmente para acentuar o desaparecimento do lobo em Portugal. Um bom exemplo são os incêndios, que todos os anos calcinam vastas áreas de mato e floresta, degradam o habitat, destroem locais de criação e refúgio e expulsam as suas presas. O mesmo acontece com os parques eólicos, que passaram a ser um lugar-comum nas cumeadas dos montes. Embora sejam fontes de energia renovável, que contribui para a redução de emissões poluentes, a abertura de acessos e a sua construção e manutenção têm tido impactos negativos em diversas alcateias, que viram os seus territórios devassados e destruídos. Algumas empresas promotoras de parques eólicos mitigaram parte dos efeitos destas estruturas através de programas de reflorestação e de reintrodução de corço, a presa predileta dos lobos.
O pior parece ser mesmo a construção desenfreada de estradas e vias rápidas que vai retalhando o já escasso território disponível para as alcateias, dificultando ou até mesmo impedindo a comunicação entre elas. Em muitos casos, mesmo quando se fizeram estudos de impacto ambiental, as medidas mitigadoras sugeridas não foram implementadas ou não surtiram os efeitos desejados. Em apenas oito anos, foram contabilizados 24 lobos atropelados, dos quais mais de metade nos traçados rodoviários a sul do Douro, o que, a avaliar pelo reduzido efetivo populacional ali existente, representa um impacto muito significativo na população lupina.
Lê-se nas considerações finais do relatório técnico Situação Populacional do Lobo em Portugal, Resultados do Censo Nacional 2002/2003, que é essencial criar um Plano Nacional de Ação para a Conservação e Gestão do Lobo, o qual “deverá envolver todos aqueles que têm, ou possam vir a ter, um papel ativo na conservação desta espécie (e.g. criadores de gado, caçadores, autarquias, juntas de freguesia, organizações não governamentais, administração central, entidades promotoras de infraestruturas de comunicação e energia, empresas consultoras da área de ambiente,...)”. Isto porque “a responsabilidade pela manutenção do estado de conservação favorável é de todos”. Portanto, é bom que pensemos no que pode ainda ser feito para que continuem a ouvir-se os uivos do maior carnívoro português.
J.N.

Crendices populares
Desde tempos imemoriais que o medo do lobo encontrou terreno fértil no imaginário popular. A lenda mais conhecida é certamente a do lobisomem, uma criatura que deixa a sua forma humana para se transformar em lobo nas noites de lua cheia, durante as quais assombra vales, serras e aldeias com o seu uivo maldito.
Curiosamente, apesar de ser um mito difundido por todo o mundo, encontra-se bem enraizado na cultura popular portuguesa, um pouco por todo o país. Além de inúmeras explicações para as causas que originam tão malvada sina (que vão desde relações pecaminosas entre padrinhos e afilhadas até inusitados enganos nas palavras sagradas proferidas no momento do baptismo), na povoação de Cambra, nos arredores de Vouzela, existe mesmo uma caverna com o nome de Cova do Lobisomem, onde o povo acredita que a besta se acoutava no final das peregrinações noturnas enquanto esperava que o amanhecer lhe devolvesse o aspeto humano.
Em muitos lugarejos, sobretudo entre a população mais idosa, mesmo quem não acredita em lobisomens considera muitas vezes que os lobos são perigosos e encarnações vivas do demónio. São vistos como seres cruéis que atacam as pessoas e os animais ou com poderes malévolos, cuja simples observação ou audição poderá acarretar consequências terríveis, como a paralisia do corpo ou a possessão por espíritos obscuros. Contudo, essas ideias não passam de superstições ancestrais. Afinal, os ataques de lobos a humanos foram sempre acontecimentos fortuitos: o último aconteceu na década de 1950 e foi perpetrado por um animal que estava perturbado pela raiva.
Muita gente acredita que homens, mulheres e crianças não são as únicas vítimas do “bicho danado”, que massacra também o gado por puro prazer e contamina os animais domésticos, como os porcos. Estes ficam afetados por uma doença extremamente contagiosa chamada “lobagueira”, que tem como sintomas o “fastio e a tristeza, apatia, que invade todos os da mesma corte e os definha até levar à morte”, relata o padre Fontes na sua Etnografia Transmontana. Assim, como seria de esperar, se o lobo era a causa da maleita, acreditava-se que também seria a cura. Por isso, sempre que um lobo era morto, retiravam-lhe a traqueia, que depois de devidamente seca serviria como amuleto curandeiro. “Assim obtinham as ‘golas’ – armas indispensáveis, juntamente com uma boa dose de fé em milagres, para combater a temida doença”, registou Paulo Caetano.
Mitos ou realidades, uma coisa é certa: desde tempos recuados que os aldeões se esforçaram por manter os lobos bem longe das aldeias, recorrendo a rezas, ladainhas e responsos antigos.
Atualmente, existe ainda uma outra ideia arreigada nas comunidades agropastoris das regiões onde há lobos: se existem nesses locais, então é porque têm sido libertados em grande número pelos fervorosos ecologistas com o intuito sórdido de destruir o modo de vida de pastores e agricultores. Nada de mais falso, dado que há décadas que não se fazem reintroduções de lobos na natureza. Os poucos que ainda persistem em território português distribuem-se de modo totalmente natural. 
Porém, o ódio ancestral ao lobo não se ficou pela tradição oral passada de pais para filhos, de geração em geração. Também perdurou através da literatura (para além de ter sido explorado até à exaustão no cinema!), na qual abundam relatos de perseguições de lobos a viajantes incautos ou de alcateias que atacam as aldeias em busca de vítimas humanas, já para não falar nos constantes ataques aos rebanhos, entre outras lendas e estórias.
São muito poucos os textos que favorecem a imagem do lobo e o tornam numa criatura mais afável e amiga do homem, como o Livro da Selva. Nos mais variados contos, histórias e fábulas infantis, como O Capuchinho Vermelho, Pedro e o Lobo, A Raposa e o Lobo e O Lobo e os Cordeiros, entre outros, este surge sempre como o “lobo mau”.
Desde Miguel Torga até Bento da Cruz, muitos foram os escritores portugueses que incluíram o lobo nos seus escritos e romances. Porém, o exemplo maior será certamente o de Aquilino Ribeiro, dado que as referências ao animal surgem diretamente em muitas das suas obras ou através das suas personagens serranas, que tinham sempre um “lado lupino”, como defende a bióloga Ana Isabel Queiroz, estudiosa do seu trabalho literário.
Seja como for, através da tradição oral ou da literatura, ou mais recentemente pela ficção cinematográfica, as crenças populares, quase sempre infundadas, em nada ajudaram a melhorar as relações de vizinhança entre homem e lobo. E está mais do que provado que as mentalidades não se mudam por decreto!
 SUPER 162 - Outubro 2011

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A estrutura da atmosfera terrestre


Eis como o ozono se estende a partir da superfície terrestre
Ozono troposférico – começa ao nível do solo e vai até uma altitude de 15km. É aquecido por energia vinda da superfície. A camada mais baixa é a mais quente: a temperatura baixa com a altitude. O calor e os clorofluorcarbonetos [?] originam uma difusão violenta, produzindo elevados níveis de ozono prejudiciais á vida.
Ozono estratosférico – Entre 10 e 50km acima da estratopausa. Contem até 90% do ozono da Terra. A estratosfera contém o nível mais elevado do planeta, entre 2 a 8 partes por milhão. Este reage com os raios UVB, produzindo a camada de ozono.
A estratosfera “divide-se” em camadas de temperatura devido á absorção dos UVB. O calor aumenta com a altitude: a temperatura no topo da estratosfera não ultrapassa -3°C.
Fonte: quero saber Outubro 2010

domingo, 14 de outubro de 2012

A camada de ozono á lupa


Podemos ouvir falar muito dela e, sobretudo, como estamos a destruí-la aos poucos, mas o que é a camada de ozono?
A camada de ozono é, basicamente, a rede de segurança do planeta Terra. Localizada cerca de 50km acima da superfície terrestre, é composta por O3 (ozono) e tem até 20km de espessura. Noventa por cento deste gás protector, crucial á vida na Terra, encontra-se na estratosfera do planeta. O ozono age como um escudo contra a radiação ultravioleta, ou UVB. Estas emissões prejudiciais são enviadas através dos raios solares e, sem o ozono, afectariam gravemente o equilíbrio ecológico do planeta, comprometendo a biodiversidade. Os raios UVB baixariam os níveis de plâncton no oceano, reduzindo as provisões de peixe. O crescimento vegetal também diminuiria, afectando a produtividade agrícola. A população humana seria afectada e exposta a um aumento de doenças dermatológicas como o cancro da pele. Mas como é que o ozono nos protege? As moléculas de ozono consistem em 3 átomos de oxigénio – daí a fórmula O3. O ozono estratosférico absorve radiação UVB, além de electrões energéticos, o que resulta na divisão do O3 num átomo O e uma molécula O2. Quando o átomo O encontra outra molécula O2, fundem-se e recriam o O3. Isto significa que a camada de ozono absorve os UVB sem se consumir. A camada de ozono absorve até 99% da radiação UV de alta frequência, transformando-a em calor após a sua reacção atómica combustível, criando assim a própria estratosfera – e incubando a vida na Terra.
Mas o ozono não existe só a tal altitude. Encontra-se também na camada em redor da superfície da Terra: 10 a 18km acima de nós, recebe o nome de ozono troposférico, ou “ozono mau”, por oposição á função da estratosfera. Este ozono ocorre em circunstâncias naturais, em pequenas quantidades, iniciando um processo de remoção de hidrocarbonetos do ar, libertado por plantas e pelo solo, ou quando se verificam transferências ocasionais de ozono da estratosfera, em altitude, para a baixa troposfera, junto á superfície terrestre. No entanto, a sua má reputação deve-se sobretudo á sua interacção com a radiação ultravioleta, e com compostos orgânicos voláteis e óxidos de azoto, resultantes da utilização de combustíveis fósseis, nomeadamente em centrais eléctricas e transportes rodoviários. Na ocorrência de temperaturas do ar elevadas, este processo gera altas quantidades de ozono, que podem ter um efeito tóxico sobre todas as formas de vida orgânica.
Fonte: quero saber Outubro 2010

sábado, 13 de outubro de 2012

Eles também sentem a morte?


Os animais reagem como o ser humano face à morte de um dos seus semelhantes? Os zoólogos deparam com casos difíceis de interpretar.
Em 2003, após uma mordedura fatal de serpente, Eleonor, uma elefante fêmea de 40 anos, tombou no chão da Reserva Nacional de Samburu, no Quénia. A sua congénere Graceaproximou-se para socorrê-la e conseguiu que reagisse um pouco, mas Eleonor voltou a cair. Em seguida, Grace passou ao seu lado uma longa noite de agonia até Eleonor morrer. Depois, numerosos elefantes, tanto parentes da vítima como simples estranhos, vieram visitar o cadáver.
O zoólogo britânico Iain Douglas-Hamilton, que se encontrava a estudar o comportamento dos proboscídeos na zona, escreveu, num estudo de 2006, que o caso constituía  “um exemplo de como elefantes e seres humanos podem partilhar emoções, como o pesar, e reconhecer e estar envolvidos na morte”. Outros especialistas destacaram o interesse que estes mamíferos manifestam pelos ossos e presas de elefantes aparentados, os quais tocam e removem com a tromba, mesmo decorridos anos depois do óbito.
Algo de semelhante acontece com os chimpanzés: Tina morreu devido ao ataque de um leopardo e o macho alfa do grupo manteve-se junto do cadáver durante horas, impedindo que outros se aproximassem. Só deixou que Tarzan, irmão de Tina, se sentasse ao seu lado. Segundo a antropóloga Barbara King, “o macho alfa reconheceu o forte laço emocional entre Tina e Tarzan e agiu com empatia”. O facto é que, como nos explica o primatólogo Frans de Waal, “os chimpanzés reagem à morte dos seus congéneres e parece que a veem como uma mudança profunda: não comem, ficam deprimidos e, por vezes, perdem peso”.
Outra história semelhante tornou-se conhecida graças ao impacto mediático suscitado pela foto da fêmea de gorila Gana com o filho Cláudio suspenso da boca, morto devido a uma deficiência genética no coração. Os comovidos visitantes do zoo de Munster, na Alemanha, foram testemunhas dos esforços da mãe para reanimar, embalar e transportar o bebé às costas; todos se reconheceram na tristeza, dor e consternação que o comportamento de Gana refletia. O caso ocorreu em 2008.
Cuidado para não humanizar
Os tratadores de golfinhos também conhecem o abalo que a morte de um exemplar causa no resto do grupo. Alterações do apetite, desânimo e apatia são sintomas frequentes que podem muito bem ser associados à depressão. Todas estes exemplos nos parecem familiares, equivalentes às manifestações de dor e sofrimento que as pessoas experimentam durante o luto. O paradigma darwinista confere sentido à ideia de que existe um contínuo na evolução e contribui para desmentir a excecionalidade humana entre os restantes seres vivos. Se existe uma sequência evolutiva, é expectável que comportamentos que se pensava serem exclusivos do homem estejam, na realidade, distribuídos pelos diferentes grupos taxonómicos, como nos casos anteriores.
Todavia, há cientistas que reclamam prudência. A lógica darwinista pode tornar plausíveis determinados raciocínios, mas qualquer afirmação tem de se sustentar em provas. Além disso, é conhecida a tendência do homem para atribuir qualidades humanas a cães e outros animais de estimação, ou mesmo a objetos, como devem saber alguns proprietários de automóveis ou motas. Trata-se daquilo que é designado por “antropomorfização”, e é como se estivéssemos a sobrepor emoções, intenções e estados mentais sobre as coisas com o objetivo de tornar a realidade mais reconfortante.
Estaremos a cair na antropomorfização quando atribuímos sentimentos a elefantes ou macacos? Estaremos a conferir-lhes algo precioso que, na realidade, apenas existe na mente de quem observa? Frans de Waal mostra-se cuidadoso na interpretação de certos fenómenos: “A partir dos dados obtidos, é impossível saber se compreendem o que está a acontecer, e menos ainda se poderá concluir que têm consciência da sua própria mortalidade.”
O etólogo Josep Call pronuncia-se no mesmo sentido: “Há observações que nos levam a pensar que chimpanzés e outros seres vivos sentem emoções e sofrem. No entanto, é preciso reunir mais dados empíricos e sistemáticos sobre o tema.” Seja como for, o facto de os seres vivos reconhecerem a morte não é um acontecimento extraordinário. Pelo contrário, é bastante habitual.
Por exemplo, Edward O. Wilson, fundador da sociobiologia e um dos maiores peritos em formigas, observou que estes insetos detetam os cadáveres de membros da sua espécie pelo odor caraterístico que emanam. Numa experiência, depositou uma gota de ácido oleico sobre uma formiga viva; as outras trataram-na como se estivesse morta e arrastaram-na para fora do formigueiro, como fazem habitualmente com os cadáveres.
Por outro lado, os etólogos conhecem comportamentos em que a morte faz parte do jogo da sobrevivência. É o caso dos animais que fingem estar mortos para evitarem o ataque de um predador, ou dos que arriscam a própria vida para salvar as crias, como acontece com algumas aves: simulam ter uma asa partida para atrair a atenção do inimigo e afastá-lo, dessa forma, do ninho.
Sentem dor ou só parecem senti-la?
Aquilo que chama a atenção não é, por conseguinte, o conhecimento da morte em si, mas as alegadas emoções que o facto provocaria em seres como os golfinhos ou os elefantes. Trata-se de espécies em cujos cérebros têm sido detetadas alterações no córtex pré-frontal e na amígdala, regiões que se ativam com as emoções humanas. São também criaturas extremamente sociáveis, que estabelecem fortes laços com os seus congéneres. A morte de um exemplar com o qual mantinham uma ligação afetiva pode produzir dor e pena. O problema de fundo é, por conseguinte, se os animais podem ter sentimentos e emoções. À partida, a impressão é afirmativa, mas será mesmo assim?
É impossível entrar na cabeça de um elefante ou de um gorila para saber o que sentem. No entanto, há cientistas que asseguram não ser necessário semelhante passo, pois as emoções transparecem através do conjunto de atitudes, gestos e ações. Será o comportamento como uma bola de cristal através da qual podemos ver os estados mentais?
A primatóloga Carmen Maté, da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), está convencida de que não é um erro falar em sentimentos animais: “Tal como podemos conhecer, através da linguagem não-verbal, os estados emocionais de uma pessoa, ainda que não partilhemos o idioma ou a cultura, essa identificação pode ocorrer com indivíduos de outras espécies.”
Carmen Maté, que foi diretora do zoo da capital catalã, assegura: “Os chimpanzés conseguem reconhecer os nossos estados emocionais, tal como nós captamos os seus. A diferença reside na nossa capacidade para exprimi-los por palavras. Os chimpanzés são muito expressivos nos trejeitos e nos gestos, fazem coisas semelhantes às humanas e nós também fazemos coisas parecidas com as deles, pois partilhamos o sistema límbico, responsável pelas emoções.”
A primatóloga está também convicta de que a consciência da morte está claramente associada à capacidade de empatia e simpatia, isto é, à disposição não só de identificar os estados emocionais como, também, de se colocar no lugar do outro. Os chimpanzés conseguem perceber que um companheiro do grupo está deprimido e procuram consolá-lo: “Estamos a falar de primatas que se reconhecem no espelho, que possuem aptidões cognitivas semelhantes às nossas em alguns casos, e que conseguem identificar estados emocionais para oferecer consolo. Se têm todas essas capacidades, por que não poderiam sentir como nós?”, pergunta Carmen Maté.
Além da vertente emocional, o reconhecimento da morte entre os seres humanos implica aceitar que a própria pessoa é mortal e que também irá desaparecer. Dado que é impossível averiguar se os gorilas sofrem crises existenciais, podemos adiantar, em contrapartida, que há experiências para avaliar o seu grau de autoconsciência. O reconhecimento no espelho constitui um teste ultrapassado por elefantes, chimpanzés e golfinhos, enquanto os restantes animais não conseguem aperceber-se de que estão a ver refletido o próprio corpo. Ultrapassar a prova significa ter, em algum grau, consciência de si próprio.
A dor e a tristeza observadas no reino animal obrigam-nos a rever a questão das diferenças que nos separam dos restantes seres vivos. Trata-se de saber onde colocar a linha de demarcação. Cada novo estudo permite acrescentar camadas de complexidade, precisão e gradualismo à interrogação. Encontramo-nos perante um problema de interpretação, e de saber como encará-lo com rigor. A falta de unanimidade entre a comunidade científica para interpretar a empatia, a dor, o luto ou a autoconsciência no mundo selvagem convida a que se façam mais experiências. No fim de contas, tal como afirma judiciosamente o psicólogo californiano Michael Gazzaniga, nunca nos passaria pela cabeça convidar um chimpanzé para sair, embora não saibamos muito bem porquê.
R.C.

Diálogo com Koko
A fêmea Koko, nascida em 1971, é um dos poucos gorilas que conseguiram aprender a linguagem de sinais, segundo os seus tratadores na Universidade de Stanford (Califórnia). Limitações fisiológicas impedem os símios de falar, mas podem adquirir uma “linguagem” rudimentar, que, no caso de Koko, chega às mil palavras. Carmen Maté explica, no seu livroSeis Olhares Sobre a Morte, a forma como a gorila utilizava a linguagem de sinais para se referir à morte (“buraco cómodo, adeus”, foi a sua resposta à pergunta sobre para onde iam os gorilas quando morriam) e aos seus sentimentos em relação ao motivo do luto (“dormir”) e à perda de um ser querido (“chorar”).

SUPER 162 - Outubro 2011

É possível alimentar o mundo inteiro sem pesticidas


Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012
É possível alimentar o mundo inteiro sem pesticidas
Clique no link abaixo para assistir ao documentário (por enquanto apenas disponível em francês)
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Alimentar o mundo inteiro é possível sem pesticidas. Quem o defende é Marie-Monique Robin, uma jornalista e documentarista francesa que percorreu o mundo para ouvir as opiniões de especialistas - de camponeses a engenheiros agrónomos - e concluiu que, sem o recurso a químicos, a população internacional seria capaz de produzir alimentos em quantidade suficiente para que ninguém passasse fome.
Robin, que tem trabalhado numa série documental de três partes sobre a contaminação alimentar desde 2008, acaba de lançar o seu mais recente trabalho, "Les Moissons du Futur" (As Colheitas do Futuro, em português), que se debruça sobre a questão da "agroecologia", uma combinação entre a agricultura, a sustentabilidade e a proteção do meio ambiente. 
"Durante a realização dos meus filmes participei em dezenas de conferências em que as pessoas me perguntavam: mas, afinal, é possível alimentar o mundo sem pesticidas?", conta a jornalista, também autora de várias obras sobre os direitos humanos na América Latina, em declarações à AFP. 
Com o seu novo documentário, o último da trilogia, Robin tentou compreender se é ou não possível resolver a crise alimentar seguindo a "agroecologia". Andou pelo planeta, do Japão ao México, passando pelo Quénia e os EUA, e reuniu-se com peritos, camponeses, agricultores e engenheiros agrónomos.
A conclusão foi clara: não só é possível produzir bens alimentares em quantidade suficiente para que não haja fome no mundo e sem prejudicar o planeta, como o facto de não se poder alimentar o mundo inteiro atualmente "se deve aos pesticidas", garante a jornalista.

Agricultura ecológica é a solução, assegura Robin
Para mudar esta realidade, adianta, deverá recorrer-se, então, à agricultura ecológica, que consiste num tratamento adequado do solo, no uso eficiente da água e no investimento em diversidade vegetal, uma mistura de fatores que permitiria pôr fim à situação atual e alimentar a Terra, alargando os benefícios à própria Natureza.
O filme, que será lançado em DVD no dia 16 de Outubro e acompanhado de um livro, ambiciona provar tal possibilidade, reunindo uma série de testemunhos de camponeses de todo o mundo que têm substituído os inseticidas por técnicas aparentemente simples, que matam as ervas-daninhas sem prejudicar o solo e sem efeitos nefastos na saúde.
A obra inspira-se também num trabalho de Oliver De Schutter, relator especial das Nações Unidas pelo direito à alimentação, que foi dado a conhecer em 2011 e que afirma que o método baseado na renovação dos solos e na eliminação dos fertilizantes químicos pode, inclusive, permitir melhorar os rendimentos das regiões mais pobres e adaptar-se mais facilmente às alterações climáticas.

[Notícia sugerida por Alexandra Maciel]
Fonte: Boas noticias