segunda-feira, 11 de junho de 2012

O conceito BTL


A estratégia de converter biomassa num líquido energético é conhecida, no meio, como BTL, da sigla inglesa de Biomass to Liquid, e encontra-se, actualmente, na linha da frente nas áreas com maior potencial de desenvolvimento ao nível dos biocombustíveis. Alberto Reis explica: “Trata-se de um processo ou conjunto de processos com sequência de etapas (operações unitárias) integradas que permitem transformar qualquer tipo de biomassa (geralmente sólida) em combustíveis líquidos com propriedades físico-químicas diversas e dirigidos para várias utilizações finais”, com o objectivo de reduzir a produção de dióxido de carbono e aumentar o rendimento total. O cientista concretiza: “Estamos a referir-nos à conversão termoquímica de biomassa, pela qual a partir de qualquer tipo de biomassa (microalgas, resíduos agro-industriais e florestais, lixos de vários tipos), sujeita a temperaturas e pressões elevadas e vários tempos de residência, se podem obter combustíveis semelhantes aos combustíveis fósseis, recriando em pouco tempo aquilo que o nosso planeta fez ao longo de milénios nas jazidas de petróleo.”
SUPER 160 - Agosto 2011

A energia das algas


 Uma alternativa biológica aos combustíveis fósseis
As microalgas são especialmente eficientes a fazer a fotossíntese, isto é, a transformar a luz solar em biomassa e produtos adequados para várias aplicações. Uma equipa do LNEG está a tentar pô-las a produzir combustíveis para a aviação.
Ter microalgas a produzir biocombustíveis prontos a ser usados na aviação comercial é o objectivo de um projecto liderado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) e pela Associação Portuguesa de Transporte e Trabalho Aéreo (APTTA). Porém, a utilização de lixo de vários tipos para obter o mesmo efeito não está posta de parte. Tudo em nome do ambiente e da diminuição das emissões de gases com efeito de estufa, bem como, claro está, da poupança em consumos energéticos tão elevados como estes.
Um biocombustível é qualquer combustível produzido biologicamente, como a palavra indica. Esta produção pode ser desenvolvida de várias formas: por via agrícola, pelo aproveitamento da biomassa agro-industrial e seus resíduos ou pela produção biotecnológica de microorganismos.
Nesta circunstância, o que está em causa, essencialmente, são as microalgas, que se apresentam como uma alternativa à produção de biocombustíveis por serem “os organismos fotossintéticos (os produtores primários de biomassa através de fotossíntese, ou seja, a partir de luz, água e nutrientes inorgânicos) de maior produtividade por área de terreno ocupado na sua cultura”, explica o professor Alberto Reis, do LNEG. A equipa de investigação engloba duas unidades, a de Bioenergia (UB) e a de Emissões Zero (UEZ).
“A produção de combustíveis através desta fonte renovável garante produtividades de energia por área de terreno ocupado entre dez e cem vezes superiores à das melhores culturas agrícolas de plantas superiores para biocombustíveis, como a palma, por exemplo”, adianta o cientista, acentuando que há outras vantagens, como a não-sazonalidade e a possibilidade de colheita diária de biomassa ao longo de todo o ano e de utilizar águas sem qualidade para a agricultura convencional (água salgada ou salobra e esgotos líquidos de vários tipos). Além disso, esta cultura é pouco exigente em relação aos terrenos utilizados, podendo ser levada a cabo em solos rochosos, salinas e pântanos, assim como em terrenos irregulares e inclinados.
Alberto Reis considera também vantajosa “a possibilidade real de utilizar efluentes gasosos ricos em gases de efeito de estufa (dióxido de carbono, em particular) provenientes de várias indústrias (centrais térmicas, por exemplo) como fonte de carbono, possibilitando um método biológico de despoluição”.
De facto, as microalgas não competem com os terrenos agrícolas pelos alimentos e estão fora das recentes polémicas e dos debates relativos aos novos usos de terrenos agrícolas para energia, “pelo que são claramente produtoras de combustíveis de segunda geração”.
Porém, nem tudo são vantagens, e o investigador reconhece que o mais difícil reside “nas baixas concentrações de biomassa em condições de cultivo, contribuindo para elevados custos de concentração e colheita de biomassa microalgal”, o que leva a que a produção comercial de biocombustíveis a partir das microalgas não seja, por enquanto, uma realidade: actualmente “faz-se apenas para casos muito particulares, no campo dos suplementos dietéticos e farmacêuticos, bem como para a aquacultura”.
O problema das alturas          
O Comércio Europeu de Licenças de Emissão vai incluir, a partir de 2012, a indústria do transporte aéreo, tendo a Comissão Europeia definido ainda como objectivo uma redução efectiva de três por cento nas emissões de dióxido de carbono produzidas pela aviação comercial no espaço europeu.
A situação obriga, pois, esta indústria a encontrar formas de combater as despesas, enquanto tenta travar a emissão de gases com efeito de estufa, o que pode ser conseguido através deste e de outros biocombustíveis.
O transporte aéreo é responsável por 2% das emissões antropogénicas de dióxido de carbono à escala mundial, com tendência para aumentar nos próximos anos. A Boeing afirmou, recentemente, que os biocombustíveis poderão reduzir as emissões de gases de efeito de estufa em voos em 60 a 80%.
Alberto Reis explica qual a vantagem dos biocombustíveis em termos de protecção ambiental: “Os combustíveis fósseis produzem gases de efeito de estufa (em geral, dióxido de carbono) quando são queimados em motores. O consumo de dióxido de carbono através de processos fotossintéticos ocorreu há milhares de anos, antes de enormes quantidades de biomassa (seja de origem microbiana, como as microalgas, seja de origem florestal) terem sido soterradas por processos de natureza geo­lógica. Diz-se que se trata de combustíveis de balanço positivo entre o carbono produzido e consumido, com consequências nefastas para o meio ambiente. Os biocombustíveis são geralmente produzidos a partir de biomassa agroflorestal, e, em consequência, de balanço relativamente neutro entre o carbono consumido na fotossíntese e incorporado como biomassa e aquele que é libertado durante a sua utilização em motores.” É por isso que a sua produção e consumo não deverão contribuir para o aumento de gases de efeito de estufa.
A investigação em curso no LNEG também envolve os cientistas Luísa Gouveia, Cristina Oliveira e César Fonseca, da UB, e Filomena Pinto, Paula Costa e Ibrahim Gulyurtlu, da UEZ. Uma vez que não se trata ainda de “uma tecnologia suficientemente madura”, os trabalhos “têm de ser conduzidos a médio prazo (três a cinco anos), até ser garantida a ampliação de escala e a sustentabilidade do processo a custos competitivos”, esclarece Alberto Reis.
Cedo para pensar em preços
Por isso, ainda é prematuro falar de custos de produção e venda desta nova geração de biocombustíveis, embora o grupo de investigação esteja a conduzir os trabalhos de forma a diminuir os custos, a fim de os tornar economicamente competitivos no menor prazo possível. Se for provada a viabilidade técnico-económica da proposta, e dado que não estará em causa a elevada produtividade das culturas de microalgas, haverá, então, a possibilidade de exportação deste biocombustível, “desde que haja empresas interessadas em explorar este enorme potencial biotecnológico”.
Com efeito, os biocombustíveis mais conhecidos são o biodiesel, um substituto do gasóleo, que se obtém geralmente pela transformação química de óleos vegetais (por exemplo, de palma, girassol ou colza), gorduras animais ou restos de óleo de fritura recolhidos em oleões, e o bioetanol, que se obtém por fermentação de açúcares (sacarose, amido e outros) extraídos a partir de produtos agrícolas como a cana-de-açúcar, a beterraba, o milho e o sorgo, entre outros. O bioetanol não difere do etanol obtido por via química e é um substituto da gasolina.
Quanto aos combustíveis para aviação comercial, exigem propriedades físico-químicas diferentes das dos que são usados em terra (desde o ponto de congelação à temperatura de auto-ignição, à densidade e à viscosidade, entre outras), devido, em especial, às pressões e temperaturas a que vão estar sujeitos, e às maiores necessidades de segurança.
“Os combustíveis para aviação comercial mais utilizados são constituídos por uma mistura de hidrocarbonetos de cadeia relativamente curta (entre oito e dezasseis ou entre cinco e quinze átomos de carbono, consoante o tipo). Esta estrutura contrasta com a da gasolina, caracterizada por apresentar misturas de hidrocarbonetos entre quatro e doze átomos de carbono, e a do gasóleo, em que os hidrocarbonetos apresentam geralmente entre dez e vinte átomos de carbono”, explica Alberto Reis.
Dentro em breve, se tudo correr como esperam os investigadores, muito desse combustível poderá estar a ser produzido a partir das microalgas e dos desperdícios da sociedade de consumo.
M.M.
SUPER 160 - Agosto 2011

Opções de consumo preferencial à reutilização e reciclagem


 




Geral · Sensibilize outras pessoas para terem em conta estes conselhos.
· Evite comprar produtos que não necessita. · Prefira fraldas de pano às descartáveis ou use-as alternadamente. As fraldas descartáveis podem demorar 500 anos a desfazer-se; as de pano podem ser usadas cem vezes cada uma e decompõem-se num período de um a seis meses.
· Compre produtos reciclados, biodegradáveis ou recarregáveis (como as máquinas de barbear) sempre que possível.
Plástico · Opte pela utilização de sacos de pano ou de rede nas suas compras em detrimento dos sacos plásticos ou de papel.
· Não utilize sacos de plástico se vai apenas comprar um ou dois produtos.
· Evite os pratos de plástico, produtos com embalagens de plástico ou com excesso de embalagens.
· Prefira levar os produtos que adquire na sua mala ou mochila.
· Se tiver que recorrer a sacos de plástico, utilize apenas o número de sacos suficiente para acondicionar os produtos que adquire.
· Prefira produtos com recarga: a utilização de recargas poupa matérias-primas e diminui os resíduos produzidos. A reutilização de embalagens de detergentes - por meio de recargas - estende a vida útil das embalagens e reduz a quantidade de matéria plástica necessária de 70% (detergentes líquidos) a 90% (detergentes em granulado).
Vidro · Consuma produtos em garrafas de vidro pois estas são facilmente recicladas, optando por garrafas com depósito em vez de tara perdida.
Papel/Cartão · Reduza a quantidade de papel gasto utilizando ambos os lados da folha.
· Evite o uso de papéis decorados, engessados ou perfumados, pois possuem produtos que dificultam a reciclagem.
· Tenha panos na cozinha para limpar pingos e salpicos, em vez de toalhas de papel. · Use guardanapos e lenços de tecido, em vez de papel, pois duram muito mais tempo.
· Prefira papel higiénico "não branqueado com cloro", porque o branqueamento produz químicos venenosos (dioxinas) que, uma vez nos rios, podem matar peixes e outras espécies.
· Opte por produtos feitos de papel reciclado sempre que possível. A média de desperdício de papel, por ano, numa casa tradicional, corresponde a seis árvores.
· Faça as emendas aos seus textos directamente no ecrã do computador, evitando impressões e gastos de papel com rascunhos.
· Compre ovos em embalagens de cartão e não de esferovite.
· Arranje uma fotocopiadora de frente e verso. Economizará milhares de folhas, sempre que tiver de fotocopiar relatórios compridos.
· Coloque um recipiente no local de trabalho só para o lixo de papel.
· Recuse folhetos publicitários que não sejam de seu interesse (incluindo na sua caixa de correio).
Energia · Utilize, sempre que possível, a electricidade em vez de pilhas.
· Procure utilizar pilhas recarregáveis e com baixo teor de mercúrio;
· Para acender a lareira, evite usar acendedores (feitos a partir de petróleo) e opte por tiras de casca de laranja seca que também deixam um cheiro agradável.
· Utilize lâmpadas compactas fluorescentes porque duram mais e gastam 25% da energia que gasta uma lâmpada incandescente.
· Utilize, sempre que possível, apenas uma lâmpada em vez de várias.
· Não coloque alimentos quentes, embalados em papel jornal ou caixa de papelão no frigorífico ou congelador.
· Verifique a vedação da porta do seu frigorífico: coloque uma folha de papel nas bordas da geladeira e feche a porta em cima dela; se a folha sair com facilidade, as borrachas de vedação devem ser substituídas. · Coloque líquidos em recipientes com tampas.
· Não desligue o frigorífico ou congelador para ligar na manhã seguinte.
· Faça o degelo quando a camada de gelo atingir a espessura de aproximadamente 1 cm. · No Inverno, regule o termostato para a posição de frio não muito intenso.
· Lave a frio na máquina da roupa e da louça (economiza cerca de 75% de energia na máquina da roupa e até 90% na máquina da loiça).
· Programe o monitor do seu computador para que este se desligue automaticamente depois de um período específico de inactividade - poupará mais energia do que usando a protecção de ecrã (vulgarmente designada screensaver)
Vários · Leve uma chávena para o emprego, em vez de usar copos de papel ou de plástico.
· Evite serviços que produzam grandes desperdícios, como os fast-food: pacotes de ketchup, caixas de cartão, copos de plástico, guardanapos de papel, etc.
· Compre produtos alimentares em tamanho familiar, poupando na embalagem, ou opte por comprá-los avulso e não embalados.
· Guarde os seus alimentos em recipientes que possa voltar a utilizar e não em folha de alumínio ou filme plástico.
· Compre pneus mais duradouros e mantenha-os com a pressão correcta, poupando gasolina e impedindo o seu desgaste prematuro devido a uma maior flexibilidade ou aquecimento exagerado.
· Mantenha os produtos perigosos (como pesticidas, tintas ou diluentes) em local seguro e use-os até ao fim.
· Deixe os medicamentos fora de prazo de validade na farmácia e entregue restos de medicamentos ainda com eventual utilização nos Centros de Saúde.
· Para limpar janelas e espelhos dilua 3 colheres de vinagre em 10; se o vidro estiver muito sujo, limpe-o primeiro com água e sabão.
· Prefira detergentes líquidos a detergentes em pó.
· Evite a limpeza a seco (para além de dispendiosa, os produtos utilizados são tóxicos - muitos artigos com etiqueta de limpeza a seco podem ser lavados a frio com sabão neutro).
· Para desinfectar, aplique vinagre directamente na sanita e deixe actuar durante a noite. Enxague de manhã. Para limpar o resto, aplique com 1 pano.
· Para desentupir canos substitua a soda cáustica por 2 partes iguais de bicarbonato de sódio e vinagre, um punhado de sal e muita água quente.
REUTILIZAÇÃO preferencial à reciclagem Cada um de nós pode criar opções baratas para a reutilização de resíduos. Identificam-se de seguida algumas sugestões:
· embalagens (de leite ou sumos): vasos para plantas, recipientes para guardar alimentos ou transportá-los para um piquenique;
· frascos vazios (de vidro ou plástico): recipientes para armazenar bebidas, ingredientes, parafusos, pregos, como porta lápis ou jarra de flores;
· caixas de cartão: para armazenar roupa, calçado, louça, revistas e livros; · envelopes em bom estado: reaproveite-os, colando etiquetas por cima do que estiver escrito;
· roupa: pode oferecê-la a quem precisa ou transformá-la em panos e esfregões;
· latas: como vasos para plantas ou recipientes para guardar objectos domésticos;
· material de aquecedores, braseiras ou equipamento informático: pergunte nas lojas respectivas se aproveitam o material que já não funciona. Se sim, entregue-os para serem reaproveitados ou reciclados.
Atenção: não reutilize embalagens que tenham contido pesticidas (produtos fito-farmacêuticos)!! Caso algum dos resíduos não seja particularmente bonito para reutilização, não desanime.
Sempre poderá recorrer à sua criatividade e imaginação, para o embelezar em períodos de descontracção (por exemplo, pintando, forrando com papel de embrulho reutilizado ou jornais e enfeitando com cordas, folhas e flores secas, etc.). Poderá também fazer papel reciclado ou papel machê em sua casa ou outros objectos que lhe sugerimos aqui.
RECICLAGEM · Retire agrafos, clips e elásticos dos produtos de papel a enviar para reciclar. · Separe o lixo. Tenha um contentor para cada tipo de material: papel, vidro, embalagens de metal e plástico, pilhas e para a fracção orgânica. Depois deposite-os nos locais adequados.
· Utilize a fracção orgânica do seu lixo doméstico para fazer adubo para o seu jardim ou horta, evitando os compostos químicos.
· Recicle o óleo de motor ou certifique-se que a sua oficina o faz.
· Sempre que tenha dúvidas sobre a colocação de um determinado objecto, contacte a sua autarquia para esclarecimentos; enquanto não os tem, opte pela sua colocação num caixote do lixo com material indiferenciado: um só objecto sujo ou não adequado pode contaminar uma grande quantidade de RS.
· Não ponha nos contentores de recolha selectiva objectos cortantes, produtos tóxicos (como tintas e pesticidas) ou mal cheirosos. No caso de pesticidas de uso agrícola, consulte Resíduos Agrícolas, para saber como deverá proceder para se desfazer das embalagens vazias. · Não coloque embalagens de diferentes materiais umas dentro das outras ou dentro de sacos atados; na fase de triagem os operadores não podem estar a desatar sacos.
· Todos os resíduos encaminhados para reciclagem devem apresentar-se limpos, vazios, espalmados e sem tampa.
Cátia Rosas Departamento Técnico da CONFAGRI Curiosidade da Semana A árvore viva mais velha do mundo é o pinheiro bristlecone (Pinos longaeva), que tem 4.767 anos. Foi descoberto em 1957, pelos norte-americanos Edmund Schulman e White Mountains.

sábado, 9 de junho de 2012

A vida das borboletas – Documento:


Os bailados aéreos das borboletas são um dos espectáculos mais bonitos da Natureza. Por detrás da sua beleza e graciosidade, escondem-se muitas curiosidades que vale a pena descobrir. O biólogo Jorge Nunes convida-o para um inesquecível passeio á cata das sedutoras borboletas portuguesas.
As borboletas são criaturas fascinantes. As suas múltiplas curiosidades (biológicas, ecológicas, evolutivas e de interacção com o Homem) e os encantadores padrões coloridos das suas asas, que parecem saídos de uma paleta divina, não deixam ninguém indiferente. Com a chegada da Primavera, não param de nos maravilhar com as suas coreografias aéreas, que trazem mais vida e cor aos campos floridos.
Tanto as borboletas diurnas (ropalóceros) como as nocturnas (traças ou heteróceros) pertencem á ordem dos lepidópteros (denominação de origem grega que significa literalmente “escamas nas asas”), a segunda mais numerosa no grupo dos insectos. Esta alberga cerca de 165 mil espécies a nível mundial, das quais 2200 ocorrem em Portugal. De um modo geral, são invertebrados bastante cosmopolitas. Aparecem em todos os continentes e podem encontrar-se desde o Equador até às regiões polares. Contudo, visto que são animais ectotérmicos, bastante dependentes da temperatura ambiente, a sua observação em climas temperados e frios circunscreve-se aos meses mais quentes e solarengos, nomeadamente à Primavera e ao Verão. Durante o resto do ano, raramente são vistos, mantendo-se abrigados (em hibernação) em esconderijos naturais (grutas, minas e troncos de árvores) e construções humanas (celeiros, pontes, cavidades de muros e habitações). Não se sabe exactamente quando os lepidópteros apareceram na Terra, se bem que sejam considerados uma das ordens mais recentes da classe dos insectos. O registo fóssil mais antigo data de há 120 milhões de anos, tendo permitido constatar que as borboletas nocturnas são mais primitivas do que as diurnas e que as grandes linhas evolutivas deste grupo já estariam estabelecidas no Cretácico Médio.
As borboletas coexistiram com os dinossauros e assistiram à diversificação das plantas com flor, com as quais foram estabelecendo estreitas relações alimentares, por vezes tão específicas que muitas tornaram-se monófagas, ou seja, apenas se alimentam de uma única espécie de planta. Este fiel “casamento” de algumas espécies com uma única planta companheira, da qual se tornaram totalmente dependentes, poderá acarretar apreciáveis problemas ao nível da viabilidade e conservação das populações, sobretudo quando essas plantas sofrem decréscimos populacionais significativos ou estão em risco de extinção.
Metamorfoses completas
Todos nós já fomos surpreendidos por lagartas a destruir-nos as flores do jardim, a roer as hortaliças fresquinhas ou a perfurar incessantemente o interior de apetitosas cerejas, maçãs ou outros frutos silvestres. Estes são geralmente encontros fortuitos que acabam de forma trágica para os repugnantes visitantes que têm a má sorte de se cruzar connosco. Porém, o que poucas pessoas saberão é que essas pequenas larvas, feias e de aspecto desagradável, acabariam um dia por se transformar em lindas e vistosas borboletas, se pudessem cumprir o seu destino natural. No entanto, a estranha transformação da lagarta (o monstro) em borboleta (a bela) não se faz directamente, sendo, aliás, apenas um dos momentos mágicos do peculiar ciclo de vida destes insectos.
Contrariamente ao que acontece com os humanos e com a maioria dos vertebrados, em que os filhos nascem com aspecto similar ao dos seus progenitores, dos ovos das borboletas eclodem criaturas muito diferentes dos adultos que as originaram. Estes insectos têm “metamorfoses completas”, uma vez que ocorrem profundas alterações ao longo dos quatro estádios que constituem o seu ciclo biológico: ovo, lagarta (larva), crisálida (pupa) e insecto adulto (também chamado “imago”).Entre cada estádio, existem mudanças notórias no corpo dos animais, as quais são muito evidentes tanto ao nível morfológico como fisiológico e até ecológico (com distintos habitats e hábitos alimentares).
Na natureza, nada acontece por acaso, pelo que existe uma explicação evolutiva para estas metamorfoses. Segundo José Manuel Grosso-Silva, especialista em insectos do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, tal “pode ser visto como uma estratégia de redução de competição entre os adultos e as larvas da mesma espécie”. Ou seja, sendo os vários estádios tão diferentes, vivendo inclusivamente em habitats distintos e possuindo hábitos alimentares desiguais, isso trará notórios benefícios para todos eles e, em última análise, para a sobrevivência da própria espécie.
Do ovo ao adulto
Após o acasalamento, as fêmeas depositam os ovos (que podem ir de algumas dezenas a vários milhares) sobre diversos substratos. Porém, quando se trata de assegurar a sobrevivência da descendência e a perpetuação da espécie, as posturas não se fazem ao acaso, evitando-se uma longa exposição ao ataque dos predadores.
Os ovos estão fixos, não possuindo grandes defesas, para além da camuflagem oferecida pelas cores, que se confundem com o meio. Por isso, os momentos e os locais são cuidadosamente escolhidos tendo em consideração diversos critérios, que variam de acordo com a espécie. Aspectos como a disponibilidade de alimento (são geralmente escolhidas as folhas das plantas que servirão de alimento às lagartas), a exposição solar, a temperatura, a orientação do vento e a presença de ovos de outros insectos são tidos em consideração pelas zelosas fêmeas. Algumas acasalam no Verão, mas apenas põem os ovos na Primavera seguinte, quando existem maiores garantias de sobrevivência da prole.
A eclosão poderá ocorrer ao fim de alguns dias ou passados vários meses. As lagartas que emergem dos ovos cedo começam a demonstrar um apetite voraz, fazendo das cascas dos próprios ovos as suas primeiras refeições. De aspecto vermiforme, sem asas nem escamas, mas com peças bucais e mandíbulas especialmente destinadas à mastigação, têm como principal objectivo alimentar-se e acumular reservas nutritivas para os estádios seguintes.
Por terem corpo mole e reduzida mobilidade, as lagartas encontram-se bastante vulneráveis aos predadores, sobretudo aves, répteis e outros insectos. No entanto, não se deixam apanhar facilmente, pois possuem um vasto leque de estratégias defensivas. Algumas são mestres na arte do disfarce, designadamente, na camuflagem (ostentando cores e texturas que se confundem com o meio) e no mimetismo (apresentando formas e colorações que as fazem parecer outros seres vivos, geralmente mais perigosos ou venenosos). Outras, em vez de passarem despercebidas, gostam de dar nas vistas. Vestem-se de cores garridas de aviso que alertam os predadores para as toxinas e pêlos urticantes, que podem atingir dois milhões numa única lagarta!
Quando a lagarta já reuniu as reservas ener­gé­ticas suficientes, deixa de se alimentar, pro­cu­rando um refúgio adequado para se trans­for­mar em crisálida. Neste estádio de desen­vol­vimento, algumas lagartas produzem seda, com a qual se fixam às plantas, cons­troem es­truturas protectoras (vulgares na família Psy­chidae, borboletas nocturnas conhecidas pelo nome popular de “bichos palheiro”) ou pro­duzem casulos onde se encerram (de que o bicho-da-seda é o exemplo mais famoso).
Este período de repouso tem uma duração variável consoante as espécies, podendo ir de uma semana até vários anos. Caracteriza-se por uma morfologia extremamente simples, dado que as crisálidas permanecem geralmente imóveis. O aparelho bucal e o ânus estão bloqueados e o animal entra em letargia total, enquanto vai consumindo as reservas nutritivas que conseguiu armazenar na fase larvar. Nas palavras do investigador Ernestino Maravalhas, constitui, “a seguir à lagarta, o mais importante estádio de hibernação dos lepidópteros de Portugal”.
Após complexas alterações morfológicas e fisiológicas, o antigo monstro rastejante que desapareceu originando a crisálida acaba por dar lugar, como que por magia, a uma criatura voadora, a borboleta. No momento em que emerge, deixando atrás de si um casulo ou um invólucro quitinoso vazio, apresenta o corpo mole, as asas flácidas e enrugadas e uma pigmentação pálida. Só ao fim de algum tempo a coloração atinge todo o seu esplendor e as asas e o exoesqueleto totalmente endurecidos permitem o primeiro voo. Seguem-se horas ou dias de magníficas coreografias aéreas e da procura incessante de parceiro sexual, pois compete aos adultos dar continuidade à história da espécie.
A duração da fase adulta é bastante variável. Há espécies que vivem apenas algumas horas, o suficiente para se reproduzirem, e outras que sobrevivem vários meses, como é o caso da almirante-vermelho (Vanessa atalanta), que pode atingir os nove meses de vida.
Olfacto apurado
No adulto, o corpo (que pode ir de dois milímetros até mais de vinte centímetros de comprimento) é quitinoso e separado por anéis ou segmentos. Divide-se em cabeça, tórax e abdómen, e encontra-se usualmente recoberto por escamas e pêlos.
Na cabeça, localizam-se as estruturas sensoriais (olhos e antenas) e o aparelho bucal. Os olhos são compostos por milhares de facetas ou omatídeos, que podem chegar aos 12 mil em algumas espécies nocturnas. As antenas estão associadas ao olfacto (embora as borboletas possam detectar odores através de outras partes do corpo) e ao tacto. A sua forma e comprimento são muito variáveis, tanto entre diferentes famílias como entre machos e fêmeas numa mesma espécie. Estas são geralmente mais complexas nos machos, dado que é através delas que captam as feromonas libertadas pelas fêmeas, como acontece com a traça Actias selene, em que os machos conseguem identificar o odor das fêmeas a vários quilómetros de distância. Além disso, o aspecto das antenas também difere consideravelmente entre os lepidópteros diurnos, que as apresentam filiformes e terminadas em clava, e nocturnos, que as possuem geralmente plumosas (ramificadas).
Os adultos não possuem mandíbulas, uma vez que nesta fase do ciclo de vida não têm necessidade de mastigar as folhas das plantas, como acontecia com as lagartas. No seu lugar, existe um aparelho bucal sugador designado por “tromba” ou “probóscis”, uma estrutura tubular que geralmente se encontra enrolada e através da qual se alimentam apenas de líquidos (néctar das flores, sumos de frutas fermentadas, seiva de algumas plantas e soluções ricas em sais minerais). Em certas espécies, a tromba está completamente reduzida e a abertura oral fechada, pelo que nesses casos os adultos não se alimentam, retirando a energia de que precisam exclusivamente das reservas acumuladas durante a fase larvar.
O tórax, onde se localizam geralmente as asas, é bastante forte, sendo aí que se encontram alojados os poderosos músculos alares que possibilitam o voo. Esses são tão possantes que permitem vinte batimentos de asas por segundo (podendo chegar aos cem batimentos por segundo em certas espécies nocturnas), atingir uma velocidade média de 13 quilómetros por hora (60 km/h nos exemplares da família Sphingidae) e percorrer milhares de quilómetros, como acontece com diversas espécies migradoras. É nesta zona do corpo que se encontram ainda os três pares simétricos de patas e, em algumas espécies, o órgão auditivo.
O abdómen, que na maioria das espécies está recoberto por escamas pilosas, é uma estrutura mole, onde se localiza a maioria dos órgãos dos diversos sistemas, como o coração, o intestino, os ovários e os testículos, entre outros.
Rastos de cor
Embora se conheçam famílias com fêmeas ápteras ou com atrofia alar, a esmagadora maioria das borboletas apresenta dois pares simétricos de asas. Estas são constituídas por uma dupla membrana, atravessada por nervuras tubulares e finas, que tornam a estrutura mais resistente, permitindo-lhe suportar grandes pressões durante o voo. Mas elas não servem apenas para a locomoção aérea: constituem também verdadeiras pinturas da natureza com diversas funções, como a diferenciação das espécies e dos sexos, a camuflagem e o mimetismo e a dissuasão dos predadores, entre outras.
As borboletas exibem uma diversidade estonteante de cores e padrões nas suas asas. No entanto, apenas quando são observadas através de uma lupa ou de uma potente lente macro revelam toda a sua beleza e enigmática origem, que resulta da existência de escamas sobrepostas nas asas (o que deu o nome a estes notáveis insectos, chamados “lepidópteros”, do grego lepis, que significa “escama”,  e pteron, “asa”). Num único milímetro quadrado, podem contar-se entre 200 e 600 escamas, sendo que em cada uma existe apenas um único pigmento. A sua disposição e a junção de diferentes pigmentos originam a gigantesca gama de cores e padrões iridescentes, que são acentuados por fenómenos de refracção, em que as cores brilhantes e metalizadas variam conforme o ângulo de incidência da luz.
Como os machos mais vistosos agradam às fêmeas e transmitem os seus genes, os cientistas acreditam que a selecção sexual terá guiado a formação destas maravilhosas pinturas extravagantes e abstractas. Portanto, pode dizer-se que são verdadeiras jóias da evolução.
Falsos olhos
E as curiosidades não se ficam por aqui. Uma grande percentagem das borboletas, sobretudo as de grande tamanho, possui ocelos nas asas. Estes são manchas coloridas que parecem imitar olhos e surgem, usualmente, apenas numa das faces da asa. Apresentam cores brilhantes e chamativas, localizando-se afastados das principais nervuras alares e dos órgãos vitais.
Os falsos olhos, a que se juntam muitas vezes prolongamentos das asas, que as borboletas movem instintivamente de forma regular, servem para confundir os predadores. Estes, ao perpetrarem os seus ataques no lado posterior do corpo, apanharão apenas pedaços de asa, enquanto a borboleta terá oportunidade de se pôr em fuga, seguindo em sentido oposto. Esta estratégia é usada pela cauda-de-andorinha (Papilio machaon) e pela borboleta-zebra (Iphiclides podalirius), que podem observar-se por todo o território de Portugal Continental. No entanto, muitas outras espécies se defendem deste modo, a avaliar pelo número de borboletas que ostentam asas esfarrapadas em virtude dos inúmeros ataques que terão sofrido durante a sua curta existência aérea.
Em algumas espécies, os ocelos perdem a sua forma arredondada ou ovalada e, em vez de escamas para reflectir a luz, surgem como “janelas”, permitindo ver através deles o substrato no qual o insecto está pousado, contribuindo para esbater a sua silhueta.
Sejam redondos ou ovais, brilhantes ou opacos, concêntricos ou irregulares, ou em transparentes “janelas”, todos os ocelos parecem resultar de um esmerado mecanismo de selecção natural, que terá ditado a sobrevivência e perpetuação dos mais aptos. Cumprem assim essencialmente duas funções: “distrair a atenção dos predadores, levando-os a morder uma área do corpo pouco vital, a asa, e aterrorizar os predadores ao exibirem sinais que lembram animais terríveis e pondo o atacante em fuga”, nas palavras de Ernestino Maravalhas.
Encurraladas pelo homem
Embora as borboletas tenham surgido na Terra muito antes do homem, a coexistência entre ambos não tem sido pacífica. A nossa espécie é um dos seus principais perseguidores. Como lembra Maravalhas, “as actividades antropogénicas sobre os espaços naturais actuam de forma nefasta sobre as comunidades vegetais e animais, revelando-se particularmente negativas no que concerne às borboletas, uma vez que a maioria das espécies resiste mal à transformação dos ecossistemas”.
Além de uma escassa minoria de espécies que consegue adaptar-se facilmente às alterações dos ecossistemas, a generalidade das populações de lepidópteros tem vindo a diminuir, tanto em número de indivíduos como na extensão das suas áreas de distribuição geográfica. Entre as causas mais apontadas para esse declínio, encontram-se a destruição dos habitats, a poluição atmosférica, a utilização desregrada de pesticidas, as alterações climáticas, a expansão das áreas urbanas e as capturas excessivas para comercialização e coleccionismo.
Sobre a destruição dos habitats, importa referir os efeitos nefastos dos incêndios, a implantação de monoculturas florestais intensivas, como o eucalipto, e a introdução de plantas exóticas invasoras, de que as acácias são o exemplo maior. Maravalhas confidencia no seu livro que tem “constatado que nenhum ropalócero sobrevive nos acaciais”, acabando por concluir mais adiante que, se “a dispersão das acácias não for travada, existe um risco real de extinção local de populações de espécies de borboletas raras e ameaçadas, algumas das quais no interior de sítios da Rede Natura 2000”.
Perante tantas ameaças, que têm levado a um decréscimo mundial e nacional das populações de borboletas, é caso para perguntar: até quando continuaremos a ser maravilhados com os bailados caleidoscópicos destes admiráveis insectos?
J.N.
Bailado nacional
Das 165 mil espécies de borboletas conhecidas a nível mundial, voam por terras lusitanas mais de dois milhares. Destas, a grande maioria é nocturna (mais de duas mil espécies), sendo distinguíveis das suas congéneres diurnas, que se resumem a apenas 135 espécies, pela configuração das asas e do corpo, pelo modo como as nervuras alares se distribuem e pela forma das antenas (geralmente ramificadas, nas nocturnas). Como é natural, as pessoas conhecem melhor as espécies que voam de dia, sendo essas que ostentam as cores mais vistosas e nos deleitam com os seus magníficos bailados caleidoscópicos.
A borboleta-do-medronheiro (Charaxes jasius), com os seus cerca de oito centímetros de envergadura, é a maior espécie diurna que pode ser observada no nosso país. Fica, no entanto, muito aquém do record mundial, que pertence à Ornithoptera alexandrae, oriunda da Nova Guiné, cujas fêmeas podem atingir mais de 30 cm. Contudo, o maior lepidóptero existente em Portugal é na verdade uma borboleta nocturna, a grande-pavão-nocturno (Saturnia pyri), que pode chegar aos 15 cm de envergadura.
Para além das borboletas nativas, algumas outras chegam com a Primavera, vindo enriquecer o colorido dos nossos campos. Entre as espécies migradoras que nos visitam, as mais emblemáticas são a almirante-vermelho (Vanessa atalanta), a vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui), a vanessa (Vanessa virginiensis), a antiopa (Nymphalis antiopa), a pratea­da (Issoria lathonia), a borboleta-da-couve (Pieris brassicae), a borboleta-pequena-da-couve (Pieris rapae), a branca e verde (Pontia daplidice) e a maravilha (Colias croceus).
Para que servem?
Especialmente os mais jovens têm muita tendência para perguntar o porquê das coisas. E, quando se trata de borboletas, há sempre algumas questões inevitáveis: as borboletas são importantes, as borboletas são perigosas, para que servem as borboletas?
Na perspectiva ecológica, podemos dar a resposta que se aplica de igual modo a todos os outros seres vivos que existem no planeta: são essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas e, em última análise, à sobrevivência do homem, mesmo quando as interdependências com este não são facilmente perceptíveis! No caso concreto dos lepidópteros, o facto mais significativo é serem insectos polinizadores essenciais para a multiplicação das plantas com flor e estarem integrados em infindáveis cadeias alimentares, de que depende um sem número de outros organismos. Por essa razão, são consideradas importantes indicadores da qualidade ambiental, pelo que quanto maior for o seu número e variedade num dado local, melhor será a qualidade do ambiente.
Numa óptica mais antropocêntrica, uma das interacções mais famosas entre o homem e as borboletas é certamente a que está relacionada com a produção milenar de seda. Essa fibra natural, usada na mais requintada indústria têxtil, resulta do aproveitamento dos casulos produzidos pelo bicho-da-seda, uma espécie de borboleta nocturna oriunda do Norte da China, que tem vindo a ser criada em cativeiro nos mais diversos recantos do mundo.
Além disso, a captura, criação e venda de espécies exóticas para fins decorativos e de coleccionismo parece ser também um negócio rentável. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o comércio mundial de borboletas representa, na actualidade, várias dezenas de milhões de euros. Este inclui a transacção de espécimes mortos (dissecados e preparados para coleccionadores), mas também de vivos, destinados às chamadas butterfly houses, onde as belíssimas espécies exóticas são exibidas com todo o seu esplendor natural.
Mas é claro que a relação com as borboletas nem sempre é benéfica para o homem. Há algumas espécies de lepidópteros que podem tornar-se pragas, causando estragos e prejuízos em explorações agrícolas e florestais. Entre as mais conhecidas nos nossos quintais, podemos referir a borboleta-da-couve (Pieris brassicae) e a borboleta-pequena-da-couve (Pieris rapae), cujas lagartas se alimentam de nabos, couves e outros legumes, e ainda a borboleta-da-sardinheira (Cacyreus marshalii), que ataca gerânios e sardinheiras.
Existem larvas de lepidópteros que atacam as macieiras, nomeadamente as suas raízes (Synanthedon myopaeformis), os seus caules (Zeuzera pyrina) e os seus frutos, como as lagartas da traça-da-macieira (Cydia pomonella), que também é uma presença habitual no interior das pêras. Outras espécies escolhem as videiras (Deilephila elpenor) e o milho (Sesamia nonagrioides).
Os pinheiros servem de alimento a várias espécies. A processionária (Thaumetopoea pityocampa), assim designada pelo facto de as lagartas se juntarem em “procissão” formando longas filas, é sem dúvida uma das mais importantes, não apenas por se alimentar das suas agulhas, mas principalmente por ser considerada um problema de saúde pública, nomeadamente em zonas urbanas. Isto acontece porque as lagartas estão recobertas por pêlos urticantes que causam alergias na pele, nos olhos e no sistema respiratório. Em zonas “infectadas”, mesmo não havendo qualquer contacto das lagartas com o corpo, os pêlos podem ser arrastados pelo vento, acabando por ser inalados ou cravar-se na pele. Provocam, usualmente, comichões e edemas, que têm tendência para piorar e espalhar-se com o simples acto de coçar. Embora seja uma situação muito incomodativa, na maioria das pessoas passa ao fim de 24 horas, sobretudo se as zonas afectadas forem refrescadas e lavadas com água corrente e tratadas com pomada anti-histamínica. Em casos mais graves, nomeadamente em crianças e pessoas alérgicas, deve procurar-se imediatamente acompanhamento médico. Como medidas preventivas, desaconselha-se o acesso a zonas onde existam árvores atacadas, que se reconhecem pela existência de grandes ninhos sedosos pendurados nos ramos.

Estudar as borboletas
Durante muitos anos, o Catálogo Sistemático dos Macrolepidópteros de Portugal, da autoria de Maria Amélia da Silva Cruz e Timóteo Gonçalves, publicado em 1977, foi uma obra de referência para todos aqueles que se interessaram pelas borboletas portuguesas, uma vez que fazia a inventariação e a revisão de todos os trabalhos conhecidos à época.
O estudo das borboletas em Portugal, no entanto, começou muito antes. Os primeiros trabalhos datam dos finais do século XVIII.
Desde esse período, foram vários os naturalistas que se deixaram enamorar pela beleza e curiosidades das “bailarinas” portuguesas. Porém, nenhum parece ter suplantado a paixão demonstrada pelo padre Teodoro Monteiro, considerado por Ernestino Maravalhas como sendo o maior lepidopterologista português. A ele se fica a dever a descoberta de espécies novas, a publicação de inúmeros artigos sobre a temática e a organização da maior colecção de lepidópteros do país.
Mais recentemente, surgiram novos investigadores que têm vindo a fazer a monitorização dos lepidópteros portugueses, aprofundando os conhecimentos sobre a sua biologia, ecologia, distribuição geográfica e conservação. Como muitos dos estudos vão sendo publicados em revistas científicas ou em publicações da especialidade, ficam fora do alcance do público em geral. Portanto, os leitores interessados em iniciar-se no estudo destes maravilhosos insectos poderão saciar a sua curiosidade nas cerca de quinhentas páginas do livro As Borboletas de Portugal, editado em 2003, por Ernestino Maravalhas, com o inestimável contributo de inúmeros especialistas nacionais e estrangeiros.
É preciso cuidado: com um guia de campo nas mãos, ilustrado com as magníficas cores destes insectos, o leitor corre o risco de se converter num observador de borboletas. Diz quem viveu a experiência que é um passatempo deslumbrante para o qual não é necessário material específico, podendo fazer-se nos quintais e jardins urbanos de qualquer cidade ou vila portuguesa, no meio rural ou florestal, nas zonas húmidas, montanhosas ou litorais. Onde houver plantas floridas, não será difícil descobrir lepidópteros, especialmente nos dias mais soalheiros.

SUPER 159 - Julho 2011

quarta-feira, 6 de junho de 2012

UMinho lança serviço para cartografar áreas florestais ardidas

FIREMAP entra em funcionamento esta semana
2012-06-05


As imagens são tiradas por equipamentos de voo não tripulados
A GeoJustiça e Pangeo, duas spin-offs da Universidade do Minho (UMinho), acabam de lançar um serviço, cujo objectivo é cartografar as áreas florestais ardidas através da utilização de um helicóptero e um avião não tripulados. O projecto chama-se FIREMAP e permite a aquisição de imagens de elevada resolução, georreferenciada e estruturada com uma base de dados geográfica nacional no sentido de caracterizar as zonas ardidas e, possivelmente, ajudar na prevenção de futuros incêndios.

“A delimitação de terrenos percorridos por incêndios assume hoje uma especial importância, pois constitui a base do planeamento de acções de recuperação de áreas ardidas, de prevenção estrutural e de organização anual do sistema de vigilância e combate. A floresta é um recurso ambiental e económico que temos que preservar. O conhecimento rigoroso destas zonas é uma necessidade”, explica Carla Freitas, fundadora da GeoJustiça, spin-off especializada na recolha, no tratamento e na interpretação de informação geográfica de apoio à resolução de conflitos judiciais e extrajudiciais.

Para além da cartografia elaborada com base nas imagens retiradas por equipamentos de voo não tripulados, será também entregue um relatório com informação detalhada sobre o número de incêndios florestais, a área ardida, o perímetro de área florestal afectada e a caracterização da vegetação existente naquele local.

Esta é uma solução que vem responder às necessidas de diversas entidades, tais como os Gabinetes Técnicos Florestais, a GNR, a Autoridade Nacional de Protecção Civil, a Autoridade Florestal Nacional e o Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, em mapear os terrenos percorridos por incêndios, através do levantamento e tratamento da informação geográfica.

“O que acontece é que estes organismos não dispõem de meios, nem de ‘know-how’ para o efeito”, reforça Paulo Pereira, doutorado em Ciências pela UMinho e responsável da Pangeo, cujo objectivo é disponibilizar serviços ligados à conservação da natureza, à educação ambiental e à informação geográfica.

O desenvolvimento do FIREMAP envolve ainda a colaboração das empresas GeoAtributo e PASSOS no AR, direccionadas para o planeamento e ordenamento do território e a produção de imagens aéreas, respectivamente. “São quatro projectos empresariais de áreas distintas mas complementares, garantido ao consórcio apoio técnico-científico e acesso ao mais moderno equipamento e a laboratórios de apoio”, conclui Carla Freitas.
Fonte: Ciência hoje